Já a algum tempo que tenho observado o preconceito da boa intenção de algumas pessoas. Pessoas que sem darem conta reproduzem o preconceito que vem enterrado intimamente e que são ditos à sombra da palavra liberdade. Mas há uma fundamental diferença entre o ser Liberal e o ser Libertário.

Não pretendo aqui falar da teoria econômica do liberalismo posto que não tenho suficiente formação para dar qualquer pitaco que seja quando o assunto é economia. Ainda assim ousarei falar do que considero como “a falsa liberdade” do Liberal.

{{Crédito da foto: yoghaert }}

 

Então em nome da liberdade {{melhor seria liberalidade}} comete-se o erro bem intencionado. É o que faz as pessoas saírem por aí dizendo que são contra as cotas raciais porque, afinal, são todos iguais.

Em nome da liberdade e da igualdade retira-se qualquer coisa de qualquer contexto. E coloca-se tudo num mundo irreal, ideal, existente apenas e tão somente na imaginação bem intencionada do liberal.

Na questão específica das cotas diz-se que se são iguais devem ter as mesmas chances. Que as cotas são uma espécie de preconceito ao revés ou preconceito assumido. Ignora-se portanto séculos de escravidão, ignora-se a história do país em que vivemos e, mais que tudo, ignora-se as estatísticas tão óbvias quanto a cota de presos negros comparados aos brancos. Ou o nível de escolaridade ou o nível salarial. Ignora-se que os negros sofrem {{porque a palavra é essa mesma}} maior evasão escolar do que os brancos, mesmo em escolas públicas {{não acredite em mim}}.

A diferença básica entre ser liberal e ser libertário é justamente o contexto histórico das coisas. Ambos dirão que as pessoas devem ter chances iguais para o ingresso nas universidades. Mas o liberal ignora o contexto dos negros ou dos descendentes de negros e conclui que chances iguais é dar a mesma prova para ambos. Enquanto o libertário atualiza seu contexto e vê que o negro não parte do mesmo ponto que o branco. Parte quilômetros atrás.

É o mesmo liberalismo que impede que as pessoas entendam a importância de um dia da Consciência Negra. Ou do Orgulho Gay. É ele que produz abominações como o dia do orgulho hétero. Ou que acha que o Estado deve se manter afastado das questões importantes.

Ora, não foi o Estado que criou a desigualdade entre negros e brancos? Não é o Estado que permite agressões contínuas aos gays?

{{Crédito da foto: peevee@ds }}

 

É o Estado que perpetua o preconceito, é justo que ele tome as rédeas do movimento contrário. São coisas simples, mas que podem ser facilmente exemplificadas. Um homem gay que tente doar sangue {{com raras exceções}} em São Paulo não conseguirá, pois o Estado considera que a chance de AIDS é maior entre os homossexuais masculinos. Por quê? Porque fazem somente sexo anal, que é o que corre mais risco de transmissão. O espírito liberal dirá que está certo, o estado de São Paulo está tentando evitar prejuízo com testes para sangue que será desperdiçado, por estar contaminado.

Mas o estado de São Paulo não busca lucro. E ao usar a lógica comercial em aspectos tão simples quanto a doação de sangue ele está ajudando a demonstrar que homens homossexuais não são iguais aos homens heterossexuais, mas piores, já quem têm menos direitos. Ajuda, portanto, a perpetuar o preconceito.

Ser libertário, repito, é considerar o contexto das coisas. E o contexto brasileiro demonstra claramente que somos um país homofóbico. Que nossa homofobia não fica na agressão verbal; somos o país ocidental que mais mata gays no mundo{{não acredite em mim}}.

Qualitativamente, democracia é um regime de minorias, porque só no
processo democrático a minoria pode se fazer ouvir. Minoria é, aqui, uma voz qualitativa

{{não acredite em mim – UFRJ – PDF}}

É por isso que o Estado deve assegurar que exista o Dia do Orgulho Gay e deveria coibir a existência de um Dia do Orgulho Hétero. Ou um dia do Orgulho Branco. Ou Dia do Orgulho de Bater em Mulheres.

Porque não faz parte da democracia a ideia de que você pode fazer e defender qualquer coisa. Democracia pressupõe leis que devem ser cumpridas. Pressupõe um aparato anti-democrático tal qual a polícia. Pressupõe, enfim, mecanismos que mantenham a própria democracia em pé.

Matar gays não é um destes mecanismos. Não me parece racional a lógica de que os gays têm mais direitos que os heterossexuais. Me parece mais provável que os heterossexuais estejam incomodados com o fato de ser possível que os gays saiam de seus guetos.

Assegurar o Dia do Orgulho Hétero é abominável. É o município dizendo que tudo bem existir grupos que vêem os homossexuais como seres degradantes, porque é exatamente isso que significa. É dizer aos gays que eles podem ser gays, mas eles lá e eu cá. De preferência com alguns planetas de distância.

Não podemos aceitar que sejamos {{todos nós}} liberais, achando que estamos sendo libertários. Liberdade não é bagunça. Liberdade pressupõe regras e respeito.

Liberdade ou é para todo mundo ou não é de ninguém.