Ninguém mais do que esse blog tem metido a colher onde não é chamado, quando o assunto são os erros e influências da imprensa. Mas concluir que por isso a imprensa é golpista parece um pouco ingênuo. Ou pior, distorcido como a quem criticamos.

{{ Créditos da foto: {link url="http://www.flickr.com/photos/biblarte/5591379749/sizes/l/in/photostream/" target="_blank"} Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian {/link} }}

Aconteceu na semana passada uma série de manifestações contra a corrupção. A melhor definição das manifestações que eu encontrei, confesso, está no Angry Brazilian do Tsavkko. Muito embora ele escreva com todas as críticas miradas aos petistas governistas {{e que me pareceu uma massa uniforme, mas que a realidade insiste em contradizer}}, ele tem toda a razão quando diz:

A Marcha não nasceu, porém, para atacar o governo petista, e sim para atacar um congresso efetivamente viciado, corrupto em sua maioria, que lava as mãos para o roubo de seus pares (vide a absolvição já esperada de Jaqueline Roriz, apenas mais uma ladra a se safar), mas que não é exclusivo deste ou de outro partido, mas generalizado. Mas, mesmo assim, a Marcha pecou pelo excesso de generalização, que demonstra e promove a mais absoluta e completa despolitização.

{{não acredite em mim – Tsavkko}}

{{ {link url="http://noticias.r7.com/brasil/noticias/marcha-contra-a-corrupcao-reune-cerca-de-10-mil-pessoas-em-brasilia-20110907.html" target="_blank"}não acredite em mim {/link} - R7}}

A grande questão é que a manifestação explorou o senso comum do Todo político é corrupto e foi feita por pessoas com pouquíssimo ou nenhum engajamento político. Classe média, em geral, manifesta-se contra a violência, a corrupção e contra os impostos. É a praxe.

O que não é praxe, embora seja, é a oposição e a imprensa embarcarem e concluírem que foi uma manifestação anti-PT, como tentou-se criar.

Diante disso tudo, criou-se, no Facebook, uma manifestação anti-Pig {{PIG foi uma denominação criada por Paulo Henrique Amorin em seu blog, Conversa Afiada, para determinar o que ele chamou de “Partido da Imprensa Golpista”}}:

{{não acredite em mim – Facebook}}

Embora a divulgação que eu tenha recebido por email e a página do evento digam que quem o criou foi o Eduardo Guimarães {{blogueiro progressista, escreve no Blog da Cidadania}} me foi esclarecido, também por email, que o criador do evento é, na verdade, a associação presidida pelo próprio Eduardo Guimarães, o Movimento dos Sem-Mídia.

Chamar a imprensa brasileira de golpista não é apenas um exagero. É um erro histórico e contextual. A imprensa nacional não faz nem sombra do que fez contra Jango. O mundo {{cuidado, vou falar uma novidade gritante e que talvez seja melhor sentar para ler…}} não está na guerra fria. Não há nem sombra da polarização esquerda-direita que houve nos anos 60.

Não há a menor possibilidade de um golpe acontecer. Ainda que isso seja um problema na hora de agregar as pessoas em torno de algo palpável, concreto, não acredito que valha a  pena pautar qualquer movimento sobre a premissa de algo inverossímil.  Até porque, dá no mesmo reclamar da bolinha de papel se acusamos o outro lado de coisas igualmente falsas.

É óbvio que a imprensa defende seu interesse. É muito óbvio que a imprensa deturpa as informações e que isso é grave. Mas é igualmente óbvio que não há tentativas da imprensa de colocar quem quer que seja no poder por vias não eleitorais. Chamar de nefasta eu topo, de golpista não.

Se há dúvidas, basta ver as manifestações da imprensa venezuelana, que escondeu armas em suas redações, para dar o golpe de Estado. Como iremos chamar aquilo se aqui é golpismo?! É tudo a mesma coisa?! Parece-me óbvio, que não. Lembrar da importância de cada palavra, da força do símbolo, é também guardar armas para o caso de algo parecido acontecer por aqui.

A Manifestação ocorrerá no sábado, dia 17 de setembro, às 14hs. No vão livre do MASP em São Paulo.

Se você é do Rio de Janeiro e quer participar, procure o pessoal do Rio Blog Prog, através da lista de discussão por e-mail, que você acessa clicando aqui.

Fosse minha opinião relevante e eu diria que é melhor uma manifestação em favor do projeto de regulamentação da imprensa, que está sendo elaborado pela Dilma. Seria mais útil politicamente, porque daria a ela respaldo político para rechaçar as manchetes de censura, que certamente surgirão.

Além disso, mostra ao público que estamos interessados, já que a chance de um plebiscito é eminente. Fazer uma passeata contra a imprensa nesse momento vai apenas passar o recibo da conta que a imprenÇa tentou nos impor, de que só há corrupção no governo do PT.

E não se pode, por outro lado, ignorar que houve e há corrupção no governo. Ainda que se apoie o governo. Política não se faz com boa vontade, mas com análise do contexto, com responsabilidade e, claro, com gente nas ruas. Mas é preciso ter tudo isso, gente na rua, apenas, pelos motivos errados, pode passar a imagem, por exemplo, de que uma passeata contra a corrupção é igual a uma passeata contra o governo. Ou, quem sabe, passar a impressão de que uma passeata contra a mídia é, na verdade, uma passeata em favor da corrupção.

 

ps: A foto não é da ditadura brasileira, mas de um dos tantos golpes que ocorreram na história de Portugal. E não, golpe não é tudo a mesma coisa.