O Brasil é retratado por muitos como sendo o país que se divide entre três paixões nacionais: o carnaval, o futebol e a novela de televisão. Esses três elementos reuniriam em si uma espécie de resumo, de extrato vivo da alma nacional.

Com o passar dos anos, a globalização da economia e a posterior quebra de fronteiras culturais proporcionada pela internet, nossas três paixões perderam um pouco da força.

O carnaval elitizou-se a partir dos anos 80, quando foram inaugurados os sambódromos do Anhembi (SP) e da Marquês de Sapucaí (RJ). Ficou dominado pela lógica do mercado e, de certa forma, foi tendo seu caráter cultural deixado de lado em prol do marketing e do dinheiro que ele gera. A grande ironia é que os responsáveis pela construção dos sambódromos foram dois governantes de esquerda: a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (PT) e o ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola (PDT). Além disso, o país viu sua população de evangélicos crescer assustadoramente. E eles não gostam da festa de Momo.

O futebol também virou biscoito fino. Os tempos de geral do Maracanã ou coréia do Beira Rio com ingressos a R$2,00 ficaram no passado. Hoje os estádios são bons, os ingressos são caros e quem não pode pagar fica de fora. Durante anos a Seleção Brasileira nem jogava no Brasil, mandando seus amistosos em Londres ou Miami. O elo que unia o futebol ao povo foi se esgarçando.

E a novela?

A novela continua popularíssima. É até hoje o produto de audiovisual mais assistido do país. No ar em três emissoras abertas e em algumas por assinatura, a telenovela brasileira teria fôlego para muitos e muitos anos ainda. A novela pouco mudou. O que mudou muito e ainda vai mudar mais é a televisão.

O comportamento do público mudou demais com o advento da internet e da TV paga. Hoje soa como um anacronismo fazer o telespectador sentar-se em frente ao aparelho todos os dias no mesmo horário durante oito ou nove meses para contar-lhe uma história que, afinal de contas, todos sabemos que tem deixado a desejar em termos de atratividade e inovação.

A novela tem muita dificuldade de acompanhar a lógica do vídeo On Demand (que o espectador acessa quando quiser). Se ele perder muitos capítulos, há de perceber que perderá um dia precioso de vida apenas para colocar a novela em dia. E assistirá muitas cenas repetitivas, feitas para satisfazer o telespectador da TV aberta, que vê a novela todos os dias no horário. Se entediará, abandonará o barco e afundará os números da emissora nesse novo cenário. Outro drama está na maneira de cobrar publicidade desse tipo de visualização. Hoje em dia essa cobrança é muito rara. Ainda não encontraram um jeito de fazer a telenovela ser rentável fora da TV.

Esse enorme preâmbulo foi para demonstrar na prática o motivo das séries estarem ameaçando seriamente o reinado das novelas no Brasil. As séries, embora antiquíssimas, obedecem a um formato que se adapta como uma luva a esse novo mundo.

O On Demand não é problema. Se eu ficar um mês sem acompanhar minha série favorita, perco apenas quatro episódios (se fosse uma novela, perderia cerca de 24!). E se por acaso eu quiser ver uma temporada inteira em dois ou três dias, não sentirei tédio ou culpa por estar desperdiçando minha vida em frente à TV. A linguagem ágil e as cenas encadeadas com engenharia meticulosa fazem a experiência do espectador ser muito mais profunda e prazerosa.

Vendo as séries o brasileiro aprendeu a assisti-las e mudou seus hábitos. E a TV já notou isso da maneira mais amarga. A queda de audiência foi brutal. Nos anos 80, era comum ver novelas das seis darem 40, das sete darem 50 e das oito darem de 60 a 70 pontos. Hoje uma novela das seis que dê mais de 20 pontos pode considerar-se vitoriosa. A novela das nove, herdeira da tradição da faixa das oito, muitas vezes não consegue dar 30 pontos.

Em contraponto, nunca se produziram tantas e tão boas séries nacionais como hoje. Na TV fechada e na aberta. O mercado de produtoras independentes está aquecido pela lei do audiovisual e ávido por bons projetos. Hoje o Brasil quer mais séries do que o que tem capacidade de produzir. Cursos de roteiro focados em séries estão fazendo sucesso e cabeças país afora.

Nossa estrutura para o audiovisual é muito precária e fragmentada, ainda hoje. Não raro vemos produtores alugando estúdios e locações em Buenos Aires, onde há cultura de investimento em audiovisual há muitos anos. As novelas Chiquititas, Antônio Alves Taxista e O Rebu foram parcialmente gravadas lá por exigirem custos menores e estrutura maior do que a que se encontra no Rio ou em São Paulo.

Quem sabe um dia as paixões nacionais do brasileiro não sejam carnaval, futebol e séries? Quem apostar nessa possibilidade não pode ser considerado louco. Sim, a telenovela brasileira é um patrimônio cultural do povo. Variante do folhetim francês e da radionovela, apenas no Brasil ela atingiu um nível técnico e artístico de tamanha relevância.

A linguagem do seriado é estrangeira, mas xenofobia é fascismo disfarçado. Devemos nos abrir ao novo. Façam suas apostas pois o futuro nos aguarda dobrando a esquina.

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