Para a direita, a culpa de todos os nossos males é do PT. Já a esquerda considera que a Geni para onde todas as pedras devem ser lançadas sem cerimônia é a TV Globo.

Nós temos a tendência de sentar o pau sem dó nem piedade na TV Globo, achando que ela é uma espécie de demônio que está por trás de tudo de sujo que existe no país. Essa péssima reputação foi construída justamente? Sim, foi. Mas será que olhar para essa emissora com ódio ajuda a melhorar a situação do país em algum nível? Não, não ajuda.

É importante aclarar algumas coisas. Precisamos entender que ela atua usando uma concessão pública, sujeita às leis do país e aos marcos regulatórios de que dispomos. Se há abusos dessa concessão, a culpa é de quem governa o país. Ela faz o que faz coberta pela lei. E até quando infringe a lei tem a anuência dos órgãos públicos, do judiciário…

O que os governos Lula e Dilma fizeram de concreto até agora contra isso? Absolutamente nada.

É fácil bater na Globo e fechar os olhos para o resto dos nossos problemas. É uma preguiça intelectual enorme ficar batendo nessa tecla como se fosse um mantra, sem olhar o contexto onde isso se passa. A Globo é um sintoma, não a causa. Foram as nossas mazelas que permitiram que uma emissora tivesse tanto poder. É a inoperância do governo ao não criar regras claras para o setor que permite que esta emissora manipule, agrida, insinue, incite, tome partido. Tudo parte de cima.

Outra coisa que me parece clara é que política não se mistura com competência. O SBT nasceu do comportamento de puxa saco do Sílvio Santos com os generais da ditadura. A Record está nas mãos de uma igreja conservadora. A RedeTV está assentada sobre a dor de muitos ex-funcionários da Tupi e da Manchete, vários sem receber até hoje. Ou seja, todas as emissoras abertas tem seus esqueletos no armário.

A Globo não é um bloco uniforme. A atuação da emissora no jornalismo e nos esportes é muito criticada, ao meu ver com toda a razão. Mas na teledramaturgia ela é referência mundial, já tendo prestado inclusive relevantes serviços a causas que são caras à esquerda. No entretenimento ela acaba sendo mediana, mas o saldo geral é positivo. Reconhecer isso não torna você adesista ou de direita. A realidade não tem cor política.

Não se pode esquecer de comparar o que era a TV brasileira antes da TV Globo com o que é hoje. Antes de 1965 a programação das emissoras era composta basicamente por enlatados e os artistas brasileiros ganhavam mal. A gestão de Boni e Walter Clark na Globo valorizou os artistas com bons contratos, estabilidade e encheu a programação de conteúdo nacional, tudo o que qualquer cidadão progressista gostaria de ver mais e mais na TV de hoje. O dramaturgo brasileiro, podado no teatro, viu na Globo a chance de fazer suas histórias seguirem emocionando e conscientizando o povo.

A TV Globo, como qualquer entidade ou pessoa, não é uma coisa só. Tem sua podridão mas também guarda um lado sublime, digno dos maiores elogios. Não canalize suas frustrações, recalques e crenças políticas para a TV Globo pois é inútil. A TV é um reflexo do povo que a consome. Faça política. Tente mudar as coisas por dentro do sistema, não sentado no sofá criticando os outros o tempo todo.

Quando a sociedade mudar, a Globo muda.