Hoje pretendo falar um pouco sobre a nossa incipiente indústria cinematográfica e de coisas que podemos aprender ao olharmos nosso grande irmão do norte, o satanás de direita libelóide. Mais especificamente Hollywood, a meca do cinema mundial.

Pra começo de conversa devemos estabelecer que, definitivamente, não existem termos de comparação entre Brasil e Estados Unidos em praticamente nenhum aspecto de análise na indústria cultural. Os americanos são especialistas nesse assunto, possuem o maior mercado consumidor, know-how, mão-de-obra, cultura cinematográfica disseminada em amplo espectro… O Brasil é outra coisa, outro patamar, outra cultura, outro mercado.

Isto estando claro, já podemos analisar as lições que podem ser extraídas da incrível experiência norte-americana no assunto.

Nos Estados Unidos, levados pelas diferenças de leis de estado para estado, os estúdios acabaram concentrando-se na Califórnia, no aprazível subúrbio de Hollywood. Com toda a cadeia de negócios que envolve o cinema instalada em um lugar só, os custos reduziram-se e a mútua procura entre mão-de-obra e empregadores tornou-se facilitada. Esta é uma lição que o Brasil até tentou aplicar em sua indústria, mas iniciativas como a Vera Cruz, a Atlântida e o Polo de Cinema de Paulínia careceram de uma estruturação mais sólida, incluindo iniciativa privada e governo no mesmo projeto.

Os americanos sempre investiram em muitos diferentes gêneros de filmes, buscando agradar e conquistar diferentes faixas de público. Filmes infantis, adultos, de aventura, terror, romance, faroeste, etc. Já no Brasil, o termo “filme brasileiro” parece designar um gênero de filmes único e uniforme: palavrões, violência, nudez e exposição das misérias nacionais em tom de crítica. O Brasil precisa aprender a diversificar sua produção cinematográfica e a produzir histórias que agradem a todos. Somente assim o cinema nacional criará um público sem preconceitos ou prevenções com o produto da terra.

Uma lição que os americanos podem nos dar com relação ao cinema e que efetivamente pode dar um salto de qualidade à nosso cinema é o investimento nos roteiristas. No Brasil, o Cinema Novo nos legou a mentalidade de que uma câmera na mão e uma ideia na cabeça são mais do que suficientes para fazer um bom filme. Hoje sabemos que não é bem assim na maior parte dos casos.

Os americanos criaram mecanismos legais muito claros para proteção dos roteiristas, que são profissionais altamente especializados e preparados para extrair de uma história o que ela tem de bom. Se o diretor é um grande roteirista, ótimo. Woody Allen está aí para comprovar isto. Mas quando isso não acontece, um diretor americano tem disponíveis centenas de excelentes profissionais de roteiro para se socorrer.

Os roteiristas americanos são tão fortes e respeitados que já pararam a indústria do entretenimento mais de uma vez em greves que mobilizaram até o governo federal. O Writers Guild of America (http://www.wga.org/ ) é referência em termos de organização sindical na classe artística.

Este é um assunto que poderia render um texto gigantesco, tamanhas são as lições que o cinema americano pode ensinar a todos nós. Além de entender estas lições, cabe a todos nós saber o que se encaixa em nossa realidade e qual o efeito prático da mudança. O cinema brasileiro precisa e merece ter novos caminhos.