Lugar de Fala: o conceito e a lacração

Na ânsia de vencer discussões e lacrar na internet, diversos grupos têm utilizado o lugar de fala e seu conceito como forma de calar o interlocutor. E mesmo correndo o risco de ter este texto tachado como “mimimi” de branco, falaremos disso.

O conceito de lugar de fala foi pensado inicialmente por feministas negras, por volta dos anos 80, sobretudo por Patricia Hill Colins, cuja ideia não é calar ninguém, mas sim quebrar com a ideia de uma única voz falando sobre um assunto.

Mas em tempos de curtidas, compartilhamentos e uma necessidade extrema de aceitação e busca por destaque, nem sempre essas necessidades têm ido de encontro com aquilo que foi pensado originalmente. E isso vale para todxs.

{{lacrar é mais importante que dialogar?}}

Ainda que pareça absurdo, é preciso dizer o óbvio: brancos e negros não falam sobre o racismo da mesma forma. Brancos, por óbvio, nunca sofreram racismo, estão numa posição de privilégio e devem reconhecer essa posição ao falar {{ou calar}}. Já os negros, por sua vez, estão em uma posição de histórica exclusão {{que segue presente}}. A mesma coisa se aplica com heteros e gays, homens e mulheres, e por aí adiante.

Quem explica melhor essa diferença entre conhecer um problema e vivenciá-lo é Marcia Tiburi, uma acadêmica brasileira feminista. Ela cita o lugar de dor para diferenciar do lugar de fala: “Aquele que é marcado como minoria, carrega a sua dor e toda dor deve ser respeitada. Mas para que o lugar da dor se torne lugar de fala, é preciso articular a dor, reconhecê-la, colocá-la em um lugar político, aquele lugar onde o outro está incluído como um sujeito de direitos que também tem a sua dor”. {{não acredite em mim – Revista Cult}}

Não é possível falar do lugar de fala sem pressupor o diálogo enquanto reconhecimento do outro. Por isso é que se torna necessário separar o lugar de fala do lugar da dor. O lugar da dor é de cada um e em relação a ele só podemos ter escuta. Já o lugar de fala é o lugar democrático em relação ao qual precisamos de diálogo, sob pena de comprometer a luta.” Marcia Tiburi, para a Revista Cult {{não acredite em mim}}

Assim, a questão toda se concentra no silêncio, e não nas falas. Ou melhor, no ato de silenciar. Não é preciso ser negro {{ou mulher, ou gay, ou indígena}} para saber que um homem branco hetero sempre terá mais oportunidades de falar e ser ouvido do que uma minoria social {{econômica?}}.

Brancos nunca foram escravizados no Brasil. Na verdade, este ImprenÇa mesmo apresentou em matéria que a diferença de escolaridade entre brancos e negros no Brasil só começou a mudar a partir da lei das cotas, nos anos 2000. Ou seja, até bem pouco tempo atrás, a média de escolaridade entre brancos era proporcionalmente tão superior à média de escolaridade dos negros quanto na época em que a escravidão era oficialmente permitida.

Ignorar essa questão é sempre um problema. De Educação, de empatia e de humanidade em muitos casos. Foi pensando nesta lógica – que não é produto exclusivamente nacional – que se encontrou o conceito de lugar de fala. Ele é um termo em sua essência acadêmico, de alguém {{alguéns}} que entenderam isso, estudaram e formularam uma proposta para que as discussões fossem horizontais e não reproduzissem a lógica de poder vigente na sociedade que, em tese, queremos mudar.

O óbvio, ou o que deveria ser óbvio é a luta por um sistema social igualitário no sentido primeiro da palavra. Onde oportunidades e riscos sejam literalmente iguais aos seres todos. Uma busca utópica, feita de caminhos reais. E nessa busca, a necessidade de encontrar diálogos nos quais os falantes sejam capazes de argumentar e serem desmentidos por seus argumentos.

No meio acadêmico, pelas razões já colocadas, é muito difícil encontrar essa igualdade de poder de fala, já que os grupos socialmente privilegiados sempre tiveram mais oportunidades. E como a busca acadêmica é também a busca por conhecimento, brancos começaram a falar sobre racismo, heteros a falar sobre homofobia e homens discorreram sobre machismo. E foi para garantir as falas de grupos menos privilegiados que se difundiu o “lugar de fala“. Foi para evitar que um negro fosse impedido de falar sobre racismo, por exemplo.

Djamila Ribeiro, importante intelectual e militante feminista negra, fala bem sobre o assunto em entrevista à Caros Amigos de maio deste ano, exemplificando o próprio movimento feminista:

Eu falo também pro movimento feminista, sou totalmente contra a visão de que não tenha que falar com homem. Se ele está oprimindo a gente, matando a gente, ele tem que entender isso, que ele não pode fazer isso. Isso significa dizer que o homem vai pegar o microfone e falar por mim? Não. Quer dizer que ele, nos espaços dele, tem que se pensar como homem. O que significa ser homem? “Eu tenho que cuidar da criação dos filhos tanto quanto a minha companheira”, “eu não posso assediar uma mulher”, “se eu tô num espaço com os amigos, eu vou falar que determinada postura é assédio”, “se eu sou professor eu vou trazer sistemas para dentro do espaço que eu atuo”… Então como ele pode usar esses espaços, não é? Isso não necessariamente é chegar num evento feminista pegar o microfone e falar.” – Djamilia Ribeiro em entrevista à Caros Amigos {{não acredite em mim}}

A ideia é a de que todos falam a partir de sua própria identidade e experiência pessoal. Um negro vivenciou o racismo de forma absolutamente diferente de um branco. Um branco não sofre racismo, mas isso não significa que não tenha vivenciado o racismo, são fatos e conceitos diferentes. Eu posso ver um amigo sendo discriminado ou humilhado e ter uma experiência do conceito de racismo diferente da dele, que sofreu na pele. É a isso que Márcia Tiburi se refere como lugar de dor.

O que tem ocorrido, no entanto, é que o conceito de lugar de fala vem sendo modificado, não para garantir a fala de grupos socialmente excluídos, mas para proibir a fala de outros grupos. E embora seja absolutamente razoável que um grupo oprimido escolha não ouvir o grupo opressor em nenhuma ocasião, dizer que é por conta do “lugar de fala” é desconhecimento. Ouvir grupos socialmente opressores é uma escolha a ser feita por cada movimento, lideranças e militância, mas esta escolha não se deve ao lugar de fala.

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É curioso o bastante para falar sobre qualquer assunto e inteligente o bastante para saber que quase sempre estará errado.