Ter um bar de oxigênio em uma festa ou ver famílias migrarem em função da poluição do ar, há algum tempo já não são mais cenas de distopias futuristas.

Tido como belo, até por Caetano Veloso, o não tão novo pôr do sol vermelho de São Paulo é o avesso de seu céu cinza, mas igualmente consequência dos poluentes que envolvem todos os seus habitantes.

A situação piora nos dias secos, pois as partículas poluentes não precipitam com as gotículas de água. Em dias assim, os jornais fazem alertas sobre a qualidade do ar. Dizem, os comentaristas, que a secura agrava a poluição e trazem inúmeros dados e previsões sobre qual a probabilidade de chuva.

Há sempre um clima de consternamento, como quando se tem uma leve tragédia natural e pouco se pode fazer. Torcem pelo retorno da umidade e sugerem atitudes individuais como beber bastante líquido e não realizar exercícios físicos ao ar livre.

Posto assim, o problema se apresenta como um revés natural do clima. Mas o que realmente afeta o paulistano? É seguro dizer que a falta de umidade, mesmo em locais não poluídos é prejudicial à saúde. Porém, no caso dessa megalópole a qualidade do ar é drasticamente afetada pela poluição e não pela secura. Mudar a apresentação do problema, no mínimo, poderia fazer com que os jornais adicionassem o uso do transporte coletivo às suas recomendações

Quando respiramos, as partículas de poluição são levadas ao pulmão e sistema cardiovascular aumentando a incidência de acidentes vasculares cerebrais, cânceres de pulmão e infecções respiratórias agudas. Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) uma em cada 9 mortes no mundo está relacionada à poluição do ar.

Em São Paulo, a prefeitura mantem relógios digitais pela cidade. Entre outras informações, eles indicam a qualidade do ar no município, usando uma escala de “boa’ à “péssima’. A medição é a realizada pela CETESB, que é um órgão Estadual. Porém, o indicador tem uma tolerância maior do que a recomendada pela OMS. Por exemplo, a CETESB considera que a presença de até 50 μg/m3 de partículas inaláveis finas no ar é boa, enquanto a OMS considera que acima de 10 μg/m3 já há risco à saúde.

Junto ao discurso climático da falta de umidade, essa classificação não dá dimensão real da situação e mina reivindicações e a adesão às possíveis políticas de combate à poluição do ar como o rodízio estadual.

Recentemente, a greve dos caminhoneiros melhorou muito a qualidade do ar. Aproximadamente 6 pessoas por dia deixaram de morrer em função da poluição durante a paralização, segundo estudo da USP. A parada dos caminhões também reduziu em 15% o números de pessoas sofrendo com AVCs.

O ar invisível e sem fronteiras é uma das mais absolutas representações do que é público. Ele é de todo mundo e é tido como de ninguém.

Com uma cegueira parte construída, parte voluntária, os cidadãos de São Paulo seguem envenenados com ilusões, asmáticos para lutar e reagem à situação com pragas ao inverno, esvaziando lojas de umidificadores e enchendo os inaladores dos prontos socorros. Morrem e jamais em seus óbitos constará menção à poluição.

*Ana T. Bonilha é psicóloga e militante de esquerda há mais de 20 anos. Realizou a pesquisa que embasa esse texto em Psicologia do Meio Ambiente no Pós Gradução em Psicologia Política da EACH – USP