Eis que chegou o dia em que concordei com quase toda a reportagem da folha… pensar que outro dia dei um RT sincero no marcelo tas.. 2012 está chegando…

Repórteres do programa da Record e do “CQC”, da Band, assumem papel de juízes de forma autoritária e desrespeitosa


NÃO SATISFEITOS EM DENUNCIAR A CORRUPÇÃO OU INÉPCIA DOS PODERES PÚBLICOS E PRIVADOS, COMO MOORE SEMPRE FEZ, JORNALISTAS ESTÃO TOMANDO PARA SI A TAREFA DE RESOLVER COM AS PRÓPRIAS MÃOS OS PROBLEMAS QUE APONTAM




MAURICIO STYCER
ESPECIAL PARA A FOLHA

A ideia de que o jornalismo praticado na televisão pode fugir do formato convencional para se transformar em uma arma de provocação e confronto tem vários pais, mas creio que ninguém fez isso de forma tão consistente e estruturada quanto Michael Moore.
Inicialmente no documentário “Roger and Me” (1989), depois nos programas “TV Nation” (1994-95) e “The Awful Truth” (1999-2000), e em todos os seus filmes seguintes, Moore estabeleceu alguns padrões até hoje seguidos na cobertura crítica e abusada de governos, políticos e corporações.
O presidente de uma grande empresa não quer falar? Moore vai até a sede da companhia e o chama com um megafone. A venda de armas é descontrolada nos EUA?
Moore vai às compras.
Os taxistas de Nova York são racistas? Moore coloca um homem branco mal vestido ao lado de um negro de terno, ambos acenando para os taxistas na rua, e observa a reação dos motoristas.
Ernesto Varela, criado por Marcelo Tas em meados da década de 80, é anterior a essas experiências de Moore.
Sua abordagem a Paulo Maluf é clássica e tornou-se uma referência para jornalistas brasileiros: “Muitas pessoas não gostam do senhor, dizem que o senhor é corrupto. É verdade isso, deputado?”.

DEGENERAÇÃO
Algumas experiências recentes na televisão brasileira mostram uma grave deformação das tentativas de Moore e Tas.
Em primeiro lugar, acho espantoso ver repórteres como Danilo Gentili, do “CQC”, da Band, considerarem que os entrevistados têm obrigação de falar com a mídia no exato momento em que eles desejam.
Nessas situações, prevalece um comportamento demagógico, de cunho “udenista”. Destemido, com o microfone na mão, ele tenta convencer o espectador de que o político tem coisas a esconder e está com medo do herói, digo, do repórter.
O trabalho se completa na ilha de edição, com a inclusão de cenas que invariavelmente revelam seguranças violentos e maus.
Outra degeneração ainda mais grave é o que eu chamaria de “jornalismo justiceiro”. Não satisfeitos em denunciar a corrupção ou inépcia dos poderes públicos e privados, como Moore sempre fez, jornalistas estão tomando para si a tarefa de resolver com as próprias mãos os problemas que apontam.
O repórter Elcio Coronato, do “Legendários”, da Record, está se especializando nesse tipo perigoso de jornalismo que é chamado pelo criador do programa, Marcos Mion, de “do bem”.
No primeiro programa de 2011, ele quis mostrar, em um shopping de São Paulo, que motoristas desrespeitam a reserva de vagas para idosos.
Para isso, impediu, com seu próprio carro, que veículos burlando a lei deixassem o local. Dessa forma, obrigou os motoristas a ouvirem seu sermão sobre aquilo que haviam feito.

COLETOR DE CONES
No segundo programa, exibido no sábado, dia 12, Coronato pretendeu mostrar a falta de fiscalização de estacionamentos irregulares em São Paulo. Sinal disso são os cones, colocados por guardadores particulares, em espaços públicos.
Dentro de uma van, o repórter passou por uma rua recolhendo cones e, por fim, foi à porta da CET e os despejou na calçada.
O “jornalismo justiceiro” é primo de outras formas de “fazer justiça com as próprias mãos”. Mais que autoritário, revela o desconhecimento das regras sociais numa sociedade democrática.
O desrespeito à lei não pode justificar outros desrespeitos. Jornalista não é polícia ou juiz.

MAURICIO STYCER é repórter e crítico do UOL

 

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É curioso o bastante para falar sobre qualquer assunto e inteligente o bastante para saber que quase sempre estará errado.

  • Putz, eu assisti a matéria dos cones no Legionários e achei muito tosca – especialmente quando o Coronato jogou os cones na calçada da CET, como se os porteiros de lá tivessem alguma responsabilidade sobre a questão. Jornalismo “do bem” não deveria esculhambar com funcionários subalternos. E, por outro lado, qual o efeito prático disto? A CET passou a apreender os cones dos flanelinhas depois desta matéria, por um acaso? Mas a audiência tá garantida, então, beleza! ¬¬’

  • Gabriel

    Resumiu bem o que penso, apesar de gostar de alguns quadros do CQC, nunca gostei muito do estilo quando apresentados pelo Gentili ou pelo Cortez (acho que é assim…), por sempre terem esse ar petulante e superior, como se pudessem julgar todos sem ser enfrentados.

  • Em comum, “a imprensa justiceira” vende a idéia de que governos não prestam, empresas idem e que a sociedade está desamparada, sem meios de representação ou organização. Movimentos sociais ou associações não tem vez nem voz. Só os heróis-reporteres para nos salvar… #podre #alienante #simplório

  • Perfeito. Há algum tempo venho tentando descobrir em que esses programas me incomodam. Pronto, agora já sei. Chega. De jornalista justiceiro basta o Clark Kent.

  • Vivis_

    “Esse jornalismo “justiceiro” existe apenas na medida em que a população clama por sua ajuda. Se ele se prolifera com tal velocidade e ousadia, é sinal de que a demanda é grande.”

    Esta semana recebemos inúmeros pedidos de ajuda no Twitter de moradores de Montes Claros que estão insatisfeitos com seus governantes. Perco a conta do número de emails que recebo semanalmente com pedidos de ajuda para resolver casos de pessoas que não aguentam mais pedir ajuda aos governantes de suas cidades, estados e até mesmo, pasmem, a policia. E olha que meu blog não tem vínculo nenhum com o CQC, é um blog de fãs, feito para fãs.

    Não concordo com ‘o jogar os cones em cima de porteiros’ do Legendários. Poderiam ter um Gran-Finale para a matéria se houvessem procurado um responsável pelo orgão, mas veja bem, estamos falando de um programa revolucionário.

    Talvez se tivessemos um país mais justo, o Jornalista Justiceiro fosse figura facilmente descartada. Infelizmente não é assim não é verdade? Deixo link de um artigo publicado em meu blog sobre o assunto. http://www.cqcblog.com/2011/02/o-cqc-transgride-a

    Abraço!

  • Hugo Borges

    Este “jornalismo justiceiro” que agora quer fazer justiça com as próprias mãos só fere o nosso contrato-social, o Estado que tem o dever de fiscalizar os atos infracionários, no momento que as pessoas começam a fazer isto vira “olho por olho dente por dente”, imagine só, começa assim fechando passagens, depois eles querem prender criminosos… é meio sensacionalista mas é o que eu acho. E é uma atitude de pouca maturidade desrespeitando leis porque os outros também desrespeitam… ótimo isso é que um bom exemplo a ser seguido em!