Polvilhos e Polvilhas, venho hoje apresentar uma discussão que aparenta ser simples, mas não é. O tal do limite do humor. Tem limite?! Vejamos:

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho.” O humorista Rafinha Bastos está no palco de seu clube de comédia, na região central de São Paulo(…)”Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade.” Até ali, o público já tinha gargalhado e aplaudido trechos que falavam sobre como cumprimentar gente que não tem os braços, o que dizer para uma mulher virgem com câncer, e por que, depois que teve um filho, Rafinha passou a defender o aborto. (…)”Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço.” Em vez de rir, uma mulher cochicha para alguém ao lado: “Que horror”.
 

 

{{não acredite em mim}}

{{Crédito da foto: Luiz Felipe “L8” Leite – não acredite em mim}}

Fazer piada sobre estupro, ao que parece, não pode. Fazer piadas sobre autismo, também não pode. Então só pode fazer ‘humor do bem’?! Não, claro que não.

 

O humor sempre foi agressivo, sempre foi transgressor, sempre atraiu um pouquinho da falta de respeito. Não acho possível fazer as piadas citadas acima, mas não acho que não possa ultrapassar o limite do politicamente correto. É só assistir um pouquinho do Chris Rock {{vale a pena}}:

 

Tem muito racismo rolando no mundo…Quem é mais racista: brancos ou negros? Negros! Sabem por quê? Porque nós odiamos pretos também!(…) Há uma guerra civil rolando hoje em dia: nós temos de um lado os negros e do outro os pretos. (…) Eu adoro negros mas odeio pretos… Eu queria que me deixassem entrar na Ku Klux Klan…
 

 

Como podem ver Chris Rock também brinca com o politicamente correto, e todo mundo dá risada. Não há um que horror surgindo da plateia. Há negros e brancos no teatro, todos dão risada. Por quê?

 

Haverá quem diga que é porque o autor da piada está inserida nela e este é um ponto interessante. Nem o pessoal da MTV era autista nem Rafinha foi estuprado, pode ser que seja esse o motivo da celeuma. Mas aí me lembro das aulinhas de grego clássico… mais especificamente das aulinhas de Teatro Grego… mais especificamente das aulinhas sobre Aristófanes…mais especificamente de um texto chamado As nuvens. Não conhece? Eu apresento {{eu não, a Wikipédia, é raso mas resolve}}:

 

As nuvens podem ser consideradas não só do mundo “primeiras idéias existentes” comédia de MAS TAMBÉM um brilhante e exemplo de sucesso desse gênero. O jogo ganhou notoriedade por sua caricatura do filósofo Sócrates , desde a sua menção em Platão é Apologia como um fator contribuinte para o velho homem de teste e execução.
 

 

{{não acredite em mim}}
 

 

A peça tira sarro com o maior filósofo da época. Trata Sócrates como um ser humano que não teve amadurecimento mental nenhum {{estou usando um eufemismo para o que costumam chamar de “retardado”}} entre outras coisas. É um ataque pessoal, agressivo. Mas não parece que tenha causado horror. Então, qual a lógica vigente?!

 

Outro cara da mesma época, um tal de Arquíloco tinha como mote:

 

“Eu tenho uma grande arte. Eu firo duramente aqueles que me ferem.”
 

 

Fazia isso de uma maneira bastante simples: poesia satírica {{estudiosos de plantão, mil perdões, estou simplificando para ser didático}}. Outras tantas obras podem ser vista ao longo da história da humanidade, sempre com algum grau de agressividade. Qual o limite do humor, então?!

 

Certamente brincar com alguma deficiência está longe de ser humor. Não é uma questão de ser politicamente correto é uma questão de ser inteligente. O humor, segundo Aristóteles {{acordei acadêmico, hoje, desculpa}}

 

A comédia é, como já dissemos, imitação de maus costumes, mas não de todos os vícios; ela só imita aquela parte do ignominioso que é o ridículo.2. O ridículo reside num defeito ou numa tara que não apresenta caráter doloroso ou corruptor. Tal é, por exemplo, o caso da máscara cômica feia e disforme, que não é causa de sofrimento.
 

{{não acredite em mim – Poética, Aristóteles}}

Acho que a questão está no sofrimento. Embora o sentido que o autor dê seja um tanto diferente do nosso sentido, acredito que um bom limite para o humor e para a graça é a questão do sofrimento.

 

Lembrando bem das palavras de mamãe:

 

Só é engraçado quando está todo mundo rindo. Quando um está chorando e os outros rindo não é brincadeira, é humilhação.
 

 

Acho que podemos partir daí. Não precisa ser chato, nem politicamente correto. Basta não fazer ninguém sofrer.