Viejo-Gasometro

Mariano Boedo foi um político. Deixou o mundo da carne e do osso no distante ano de 1819. Antes disso, trabalhou ativamente no processo de independência da Argentina, que data de 1916. Advogado além de trabalhador político, seu nome está em qualquer decoreba de livro didático nas escolas públicas argentinas. Dito isto, talvez muitos não saibam que é de seu suor e legado que vem a inspiração para o nome não de uma rua ou uma praça, mas sim de um bairro inteiro, na capital do país.

Boedo é um bairro de classe média localizada na metade sul de Buenos Aires, pertinho de Parque Patrícios, Caballito e flertando com a região metropolitana, Avellaneda, Lanús e quetais. “Vengo del barrio de Boedo, barrio de murga y carnaval”, canta o vento do bairro. Um sussurro anônimo que já foi êxtase, e hoje é lamento. Cantavam ali, cheios de orgulho, os torcedores do San Lorenzo, esta e muitas músicas que lhes deram a fama de torcida mais criativa musicalmente do continente. Não cantam mais. A murga, que é uma espécie de bloco carnavalesco daquele país, murchou.

O sul de Boedo, colado em Parque Patrícios, é mais barra pesada. Não à toa, essa divisa de bairros alimenta uma das grandes rivalidades do país. O Huracán, de Patrícios, e os Cuervos do San Lorenzo, clube que, não se perca pelo nome, está ligado ao cristianismo muito antes do Papa virar o Papa (e declarar, fanfarrão que é, ser sócio do San Lorenzo), e cujo apelido, corvo, é por causa da roupa do padre que apadrinhou o clube, toda preta. Mas o que temos hoje? O Huracán, que recentemente revelou Defederico (lembram?) e o vendeu para o Corinthians, quebrou, deixou de ser forte, não é mais o chamado “sexto grande”. E o San Lorenzo mandou-se de Boedo, foi parar nos cafundós da cidade, e é por isso que você não deve ter ouvido nada sobre esta rivalidade, mas já ouviu sobre o Vélez, clube que ocupou o espaço esportivo destes dois. Mas dane-se o Vélez: como que um time se manda de um bairro? Política.

Mas não a política de Mariano Boedo, independentista, rumo a liberdade, e sim a política ditatorial, a ditadura de Videla, rumo à escuridão. O San Lorenzo, no ano de 1976, dois anos antes da Copa do Mundo no país, foi, digamos assim, “convidada” a vender a sua sede, o estádio do Gasometro, casa inclusive da seleção argentina por muitos anos, um mítico campo de futebol. Era objetivo do “governo” do país usar aquele espaço para a construção de novas avenidas. Sem ter como argumentar, o terreno virou de Videla, o San Lorenzo ficou sem casa, e os carros nunca trafegaram por avenida alguma. O que era um estádio se transformou em um Carrefour após anos de ociosidade do terreno.

É preciso dizer que a identidade de bairro significa, para um argentino, muito mais do que para nós brasileiros. É um traço muito forte da cultura e do estilo de vida deles. O San Lorenzo (que era originalmente de Almagro, e de lá também teve que sair a contragosto) sair de Boedo é muito mais grave do que parece, e já parece grave de pronto: onde jogaremos? Qual é o nosso cantinho no mundo? Pois bem. Os corvos pingaram em canchas alugadas aqui e ali até que, num esforço descomunal financeiro e braçal e político de sua torcida e seus sócios, foi construído um novo estádio em 1993. O Nuevo Gasometro. Quatro imensas placas de cimento emoldurando um campo, nenhuma marca arquitetônica relevante, e na quebrada de Bajo Flores, bairro nem tão longe de Boedo, mas muito complicado do ponto de vista logístico.

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Em 1993 a ditadura já tinha caído, a Argentina era outra, a nova cancha dava orgulho em sua torcida pelo enredo de sua construção, mas ainda ouviam, jogo após jogo, o canto dos rivais: “de que barrios sos, de que barrio sos, de que barrio sos San Lorenzo?”. Dói na alma de “la gente del cuervo”. As canções e as faixas e as memórias sempre remetem ao bairro antigo, uma coisa de “estamos aqui, mas somos de lá”, uma tentativa de afirmação de memória que parecia tortura aos tradicionalistas, e atraso para os que só olham pra frente. E como tortura é uma coisa difícil de suportar, a história começou ano após ano a ganhar um novo contorno e abrir uma fresta para a mudança. A primeira fresta: a percepção de que na Argentina as barbaridades feitas pela ditadura são, sim, interpretadas de maneira diferente que no Brasil. O argumento “isso aconteceu na ditadura” serve para pressionar determinada ação política de restituição histórica. Nasceu um sonho.

O sonho de voltar para o próprio bairro. Até então, a piada já estava velha e consumada. O San Lorenzo, como uma espécie de Palmeiras portenho, foi o primeiro dos grandes a ser rebaixado, e, tal qual um Corinthians platino, foi, e ainda é, o único grande sem Libertadores. Foram patrocinados pelo Wal-Mart, mercado concorrente do maldito Carrefour. Cambalearam no campo econômico. Em campo, não gozaram de melhor sorte nos anos 2000, mesmo ganhando uma Copa Mercosul e uma Sulamericana no começo do século. O grande título estava por vir, e sem nenhum grande craque de chuteiras. Sócios e torcedores montaram uma comissão para lutar, de forma técnica e política, pela restituição. Estudaram possibilidades, criaram um fundo, se uniram a padrinhos daqui e dali. Uma luta vista como utópica por muitos a princípio.

Mas havia a possibilidade. Eles se organizaram. Saíram às ruas em uma mobilização espetacular (veja o vídeo abaixo), lotaram a Praça de Maio no dia 8 de março de 2012, o chamado dia do 8M que reuniu 100 mil pessoas [link], bateram firme em todas as esferas, ganharam apoio da mídia, tiveram políticos comprando a ideia e trabalhando por eles, juntaram dinheiro de diversas fontes possíveis, e, em um trabalho efetivo de mais de 5 anos, conseguiram, enfim, uma votação no congresso que abriu, por 50×0, o caminho para a restituição histórica e a volta do San Lorenzo para o seu cantinho no mundo, o seu bairro [link]. E quanto ao Carrefour? Este, então, foi, olha que delícia, “convidado” a entrar em um acordo que nunca quiseram. Assinaram uma parceria de coexistência no terreno onde será erguido o novo estádio [link]. Pouco mais de quatro milhões de Reais foram pagos para o supermercado. Agora, mãos à obra.

O paradoxal é que não será construído um estádio romântico, à moda antiga, como era o Gasômetro original. O plano é de uma arena com assentos cobertos, priorizando o conforto e trazendo ao torcedor uma oura experiência futebolística, não aquela coisa de quilombo, de lugar sagrado e ardente, como era o carcomido e descascado estádio dos corvos. Nesse sentido, a conquista simbólica é mais importante que a prática, posto que ninguém ainda sabe como será, no Brasil e na Argentina, a gestão de arenas cujo padrão e demanda de manutenção exigem preços e cuidados diferentes dos praticados desde sempre. O brinquedo pode se tornar um abacaxi, e uma oca suja é mais fácil de ser limpa do que uma mansão.

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Ainda assim, esta é, na minha humilde opinião nesta encarnação quase toda voltada ao entendimento do futebol como coisa mais bonita do mundo e como forma de ver menos carros batidos e novelas babacas e pessoas mortas ou milionárias nas tevês e jornais e revistas, a história mais bonita envolvendo uma torcida, uma identidade, um lugar no mundo e um esforço coletivo capaz de mudar a história. Serve para quem teima em duvidar, ou debochar, daquele bando de gente espremida cantando e batendo palminha vendo um jogo de bola. Eles, unidos, tal como todos nós, conseguem coisas. A fé moveu um supermecado e restituiu uma história que a ditadura deformou. Como os torcedores do Racing que salvaram o time da falência decretada pelo governo uma década atrás, tal conquista dos corvos despertaram o respeito de todo o mundo do futebol. Ganha também o próprio cenário político argentino, que estatizou a transmissão do seu futebol em 2009 após o casal Kirchner entrar em guerra com o monopólio midiático chamado Clarín [link], e que mostrou ter sensibilidade para uma negociação delicada envolvendo milhares de indivíduos malucos e uma grande e respeitada corporação, mostrou ter ouvidos e caminhos desobstruídos para a justiça subjetiva de algo que, no rigor da lei, não foi criminoso. Só quem perde um pouco é o Carrefour, mas ninguém se importa tanto assim com uma filial de um supermercado.

A trama política, verdadeiro caso onde o sempre frio Direito dá de cara com o fundo do fundo do emocional dos indivíduos e o caminho para a vitória envolve um número incontável de argumentos nem sempre muito documentais ou comprobatórios, é coisa que vai dar em livro em breve. Ao meu lado enquanto escrevi isso está um livro que conta a história do primeiro Gasômetro, o demolido Gasômetro. Foram 66 anos jogando e vivendo em Boedo. Mais de 30 anos tendo que jogar e viver fora. E na hora da volta, quando o estádio estiver pronto, Adolfo Resnik e Daniel Peso, os líderes da “Subcomisión del Hincha de San Lorenzo”, estarão misturados e anônimos no meio da massa azul e vermelha que poderá, enfim, cantar em resposta aos seus sempre cruéis rivais: “San Lorenzo ya volvió, San Lorenzo ya volvió, se lo dedicamo a todos los que preguntaron `de que barrio sos´”.

Leandro Iamin é jornalista esportivo, atualmente na rádio Central 3 (via web) como apresentador, produtor e comentarista, além de escrever em diversos blogs.

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É curioso o bastante para falar sobre qualquer assunto e inteligente o bastante para saber que quase sempre estará errado.