Nem sempre aquilo que é óbvio é de simples compreensão.  O Brasil, outrora colônia portuguesa, leva em suas raízes um pensamento político que não entende a profundidade de uma República Federativa. Vamos falar de política?

Para falar de política de verdade, daquela que realmente muda o país {{seja para melhor ou para pior, isso é uma análise posterior}} é preciso entender o funcionamento da máquina política. Infelizmente não está muito na moda fazer análises concretas.

Temos um país com forte herança cultural portuguesa. Temos aí uma grande influência cultural da religião, temos uma burocracia que não mente sua origem e… temos um pensamento político popular que é do mesmo tipo que faz a leitura política de um Rei, ou Imperador.

Aliás, é bom lembrar, além de nós, quem na América teve Imperador?  Nós importamos uma corte, estão lembrados? Pois sim.

O engraçado é ver que as pessoas utilizam as mesmas formas de crítica que a população francesa utilizava ao falar dos absolutistas… “É tudo corrupto, bando de canalhas. Não fazem nada pelo povo. Só pensam no próprio bolso” Frases comuns à pré-revolução francesa {{ou burguesa se quiserem ser um pouco marxistas}}. É preciso lembrar o que houve depois da Revolução Francesa. Quem ganhou, afinal?

A total falta de compreensão da mídia sobre o funcionamento dos 3 poderes é compreensível. Por um lado o repórter não tem interesse em entender e por outro o dono do jornal não tem interesse em divulgar. Mas a falta de compreensão de quem discute política, esta deveria ser inaceitável.

O fato, pessoas, é que o chefe do poder Executivo nada mais é do que um intermediador. Um negociador.

É da democracia a coligação de forças. Faz parte dela. Não é algo ruim em si. No entanto as pessoas preferem ver como nefastas as alianças de qualquer poder executivo a entender que elas representam o macro da democracia.

Tentando ser simples, vamos olhar o congresso.

{{não acredite em mim – BBC}}

Como se sabe, ou deveria se saber, o poder Executivo negocia a todo momento com o Congresso Nacional. Seja para aprovação de uma lei, seja para aprovação do orçamento, etc.

E o que demônios significa um congresso mais fragmentado ? A grande mídia dirá que é um número gigantesco de partidos, como nunca se viu antes.

Fato, indignada leitora e inocente leitor, é que cada um dos congressistas está ali pelo poder do voto. Trocando em miúdos, cada um dos deputados e senadores está ali porque representa parte da sociedade. E não adianta ser infantil e soltar a típica frase “mas fulano não ME representa”. Bom, colega, você, feliz ou infelizmente, vive numa democracia.

E na democracia quem tem mais voto entra. E quem entra te representa. Você querendo e gostando ou não.

A verdade é que não adianta sair por aí gritando aos doze ventos {{por que seriam só 4 ??}} que o congresso isso ou aquilo. Ele está lá por força de parte da população. E a democracia é assim mesmo, cada parcela da população, cada estrato social elege seu representante. E no congresso eles brigam para impor suas vontades.

É bem verdade que em geral eles não brigam de sair na porrada, né? Mas isso é outra história.

{{Crédito da Foto: rbpdesigner }}

Não tem nada mais democrático que um congresso fragmentado. A sociedade é toda unificada? Claro que não, portanto o que temos nada mais é do que algo legítimo. E isso é o que realmente importa. Legitimidade.

Quando as forças brigam entre elas para chegar a um acordo {{e normalmente chegam}} estão brigando por impor objetivos deste ou daquele grupo social. Sejam os representantes do agronegócio brigando com os que desejam a reforma agrária; sejam os representantes gays brigando com os representantes de quem pensa que ser gay é crime divino.

Mas voltemos à presidência.

A lógica das pessoas parece acabar quando olhamos para o Executivo. Esquecem que nenhum partido é eleito sozinho. E é bom que seja assim. Quando um grupo é eleito, o grupo é que precisa governar. Então quem escolhe os ministros? O grupo.

É claro, óbvio, ululante que o partido que deu o nome à Presidência é quem tem a decisão final. Mas a decisão não pode {{e não é}} deste partido sozinho. Quando o Presidente é eleito, ele não vira imperador da noite para o dia. Ele precisa compor.

Compor, ao contrário do que dirá a mídia e a esquerda-mais-esquerda-que-você, não é nada inglório ou espúrio. É entender que as forças que te elegeram precisam governar contigo.

Primeiro por uma questão de coerência: Os partidos que fizeram a composição da aliança {{dando tempo de TV, nomes nos palanques, doações financeiras e ajudando, de fato, a eleger o Presidente}} devem, ora bolas, participar da governança. Depois por uma questão de governabilidade: Ora, se o Congresso e a sociedade não são blocos únicos {{mas a junção de diversos blocos}} é bastante plausível supor que não seja legítimo um governo executor composto por um bloco único.

E aí é que volto à questão principal: O Presidente é eleito para fazer a negociação destes diferentes interesses.

E se baseia no quê, para negociar? Naquilo que representa seu partido, seu plano de governo. Naquilo que ele propôs ao se eleger.

Para ficar na questão que mais salta aos olhos hoje: Agronegócio x Agricultura Familiar e Reforma Agrária.

Ambos ajudaram a eleger Dilma. Tanto aqueles que desejam a reforma agrária quanto aqueles que desejam mais agronegócio. Acontece que os interesses destes grupos são absolutamente paradoxais. Mais complexo que isso é entender que o país precisa dos dois interesses.

Por um lado o agronegócio paga as nossas contas há muito tempo. Por outro, a agricultura familiar emprega 70% da mão de obra rural. Não adianta ter dinheiro se o trabalhador não tem emprego. E não adianta ter emprego se o salário não é bom.

O papel do representante maior do Poder Executivo é justamente arbitrar a briga. Colocar ambos na mesa e chegar num acordo. Se os dois grupos saírem reclamando, bem, daí acho que o acordo foi bom para o país.

E se é assim para a questão rural, não seria assim para todas as outras?