Dia 12 de março. Saio de casa, apressado, para uma reunião no diretório zonal do PT, em São Paulo. De lá saio e vou me encontrar com um grupo de jornalistas que estão reunidos. E passamos a chamar: Jornalistas Livres.

Quem ? Quens! Assim mesmo, num plural inexistente. Como era inexistente tamanha ousadia.

Poucas horas antes de manifestações simultâneas por todo país. Conversa aqui, discute ali…Decide-se: Jornalistas Livres. E não importa se não somos todos jornalistas de formação, faremos jornalismo. E faremos isso de maneira livre.

Jornalistas Livres

Dia 13 de março de 2015.

Movimentos sociais convocam a população e os trabalhadores a irem às ruas defender a Petrobras e criticar o governo ao mesmo tempo que o defende do impeachment. Ninguém falou que seria fácil entender.

Saio de casa, passo num mercado e compro uma dessas “baterias-extra”, hoje é dia de celular trabalhar. E caminho em direção ao trabalho. Tranquilo? Ansioso. Será que vai dar samba?

Chego e uma sensação estranha, um vazio estranho. Não um vazio de nada acontecendo, o oposto. Um vazio que borbulha, um vazio quente, agitado. Vai ter briga?

Almoço e no almoço uma surpresa. Entre um gole e a sobremesa; uma moça.

– Com licença.
– Toda…
– Só quero te dar os parabéns, feliz dia de lutas!

A mesa se entreolha. Ali, ao lado da Paulista, num bairro tradicionalmente conservador, sem mais nem por onde um parabéns? O dia promete.

Voltamos do almoço e uma moça {{outra}} no carro me olha feio. Ameaça falar algo e desiste. É, hoje o dia é mesmo nosso.

Pego minhas coisas, respondo um e outro e-mail e aviso o pessoal: estou indo.

{{Crédito da foto: Jupira Cauhy}}

{{Crédito da foto: Jupira Cauhy}}

Saio do escritório e vou chegando na Paulista como se ela não fosse minha. Devagar, pisando em ovos. Segundo combinamos, eu deveria verificar a situação da PM. Será que vai dar briga?

Ao me aproximar da Brigadeiro Luis Antônio, não foi só um amontoado de lembranças que me encontrou. Não foi só a lembrança de tantas manhãs indo a pé para a escola e gastando as economias no Mactrolhaldiz. Não foram as comemorações de títulos que fiz ali que me vieram.

Foi um certo espírito de luta. Espírito brasileiro.

20150313_132022Jornalistas mais do que Livres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pouca gente, muito pouca gente. E antes que eu pensasse em oposição o colega de trabalho fala: mas estava marcado para as 15h, são só 12h30. Será? Será que vai ter gente?

Continuo caminhando e passo em frente ao prédio da Petrobras. A chuva dá lugar a um solzinho, assim mesmo, no diminutivo. E por ali conto cerca de 400, 500 pessoas. Mas vai vir mais gente, né?

Jornalistas Livres

A CUT anuncia que ali tem 1500 pessoas. Pode ser. Ainda é pouco. Saio dali, me escondo embaixo de uma marquise, chuva novamente. Pô, São Pedro, deixa de ser pelêgo.

A chuva diminui e eu aperto o passo. Quero chegar logo ao MASP onde, dizem, há 1 500 professores estaduais reunidos em assembleia. Caminha, caminha, anda, caminha, corre, chegamos.

Jornalistas Livres e professores estaduais

Legal, lotou aqui. Mas aqui {{no caso aí em cima}} é uma assembleia dos professores. Cartazes do PSTU criticando Dilma e Alckmin. São contra todos? E quem será por eles?

Não é o caso de reflexão. Alguém avisa que perto da gazeta tem 2 ônibus com “robocops“. Robocop, se você não é paulistano, é uma fantasia metida a besta que a PM teimou de usar quando esse bando de petralha {{dane-se, tá de vermelho é petralha, é assim que a PM te vê}} resolve se reunir.

Aviso os companheiros, que topam voltar comigo. Voltamos e na volta uma cena inusitada, uma família compra um salgadinho na banca, para a criança. E como tinha criança! Pergunto se posso tirar uma foto {{mal de quem não é jornalista e insiste em achar que as pessoas têm o direito de não quererem ser fotografadas}}. A mãe manda perguntar para o pai {{sim, a esquerda é machista}}, o pai olha minha camiseta, sorri e permite. A foto é feita, a vida segue.

Não é a melhor das fotos, a menina se deu ao direito de não querer aparecer. O pai bem que tentou, mas, parece, a esquerda quer deixar de ser machista. Melhor assim. Continuo em busca dos policiais de fantasia. Encontro, estão ali, todos devidamente paramentados. Vai dar briga?

Chego de volta à Petrobras. Os Jornalistas Livres sem parar: é drone; é tweet; é informação; é transmissão. E eu querendo saber: vai lotar? Jornalistas Livres e os Robocops

E não é que lotou? A coisa foi tomando corpo, alguém me diz um oi. Ah, é aquela amiga da faculdade. O outro cumprimenta. Ah é a JPT. Eu começo a perder o foco, a chuva aperta, um lado da Paulista fecha. Tuita, informa, sorri.

E eis que fecham o outro lado também! Tuita, informa, sorri. Ah, que se dane tanta formalidade, vou curtir. A partir dali os Jornalistas Livres tiveram que seguir sem mim. Impossível usar uma tela touchscreen {{que é feita por escravos chineses, lembremos}} com tanta chuva.

Celular no bolso, um sorriso, e muitos, muitos gritos. Continuei andando, desci a Consolação, fiz uma entrevista com um professor que veio da periferia de cadeira de rodas. Um dia eu publico, talvez… Quem sabe? A chuva não para e não rola o tal panelaço. No dia anterior, na formação dos #JornalistasLivres alguém mencionou um acompanhamento que sugeria mais de um milhão de mensagens no zazap afirmando combinar um ato de rebeldia. Não aconteceu.

20150313_174832

 

Muita gente gritando “Quem não molha é tucano” e eu sigo sem foco. Já não sei mais onde está a PM, já não me lembro de relatar aquele cara que estava bêbado ou era infiltrado ou ambos e estava chutando algumas portas. Não importa. Já não lembro de informar mais nada para quem está em casa, sou egoísta, pensei.

Chego na República, volto aos #jornalistaslivres. Tento falar com um PM que só falta cuspir na minha cara:

– Boa tarde, trabalho no bla bla bla, houve alguma confusão?
– VOCÊ VIU ALGUMA CONFUSÃO?
– Veja bem, eu não vi, mas queria saber se você viu…
– SE VOCÊ NÃO VIU, EU TAMBÉM NÃO VI.

 

Ele ganha mal, lembro de pensar. E mais chuva na cabeça. Naquele momento já não sinto frio, já não sinto chuva, só realização. Deu samba. Tinha muita gente. Não deu briga. Ganhamos, pensei aliviado. E tentei pegar o metrô, mera ilusão. Saio do metrô e corro para o ônibus. O celular, uma piscina. Eu só alegria. E rima na prosa, minha professora de redação daria bronca. Chego em casa, cadê aquela foto do drone? Ah, sim, ei-la:

1234756_10206038639035107_6085976565080585071_n

{{Crédito da foto: Mídia Ninja, do drone}}

E de tudo que houve hoje, só me vem um pensamento: São humanos, esses petralhas. São humanos. E se eu puder, direito que não tenho, taxar o que houve hoje, não teria outra palavra, ou teriam várias, todas iguais: humano, humanizador, humanizante. Emocionante.

E de difícil compreensão. Muita gente ali critica a Dilma. Mas é unânime, queremos que ela fique. Então vamos para a rua, como este blog acertadamente disse outro dia, vamos para as ruas. Vamos ganhar esse governo que já é nosso.

kralho

Por Victor Amatucci, com os Jornalistas Livre*
*#jornalistaslivres em defesa da democracia: cobertura colaborativa; textos e fotos podem ser reproduzidos, desde de que citada a fonte e a autoria. mais textos e fotos em facebook.com/jornalistaslivres

Compatilhar
Share

É curioso o bastante para falar sobre qualquer assunto e inteligente o bastante para saber que quase sempre estará errado.

  • Wana Maria Rocha

    Texto lindo, emocionante..
    Me senti na Paulista, apesar de morar em outro Estado.
    Você tem toda razão: somos Humanos!!!

  • Pingback: PM: A Polícia do cidadão branco()