Ano 2000.

Governo FHC.

Eu estava no segundo ano de Letras numa faculdade pública. Estudava no período noturno, indo dali direto para o trabalho, onde permanecia até às sete da manhã. Eu atendia telefonemas numa agência de moto táxi do centro da cidade e, com esse dinheiro mais uma bolsa-auxílio que recebia da faculdade, sustentava minha casa. Estava cansado, esgotado, isolado dos amigos e sem perspectiva de vida. Meu pai morrera meses antes e eu ainda não superara o trauma. O país era outro, não havia muitas perspectivas.

No meio daquela correria em plena madrugada eu planejava meu futuro imediato. Queria ir embora do Brasil. Atendia os ansiosos passageiros e marcava as corridas. Nos intervalos entre uma chamada e outra, pensava para onde deveria ir. Onde será que a felicidade e a independência morariam?

Inglaterra! Mas não falava inglês. Itália! Afinal eu estava fazendo Letras com habilitação em língua italiana… Bom, mas se o problema fosse o idioma, era melhor ir para a Espanha, já que eu dominava o idioma de Cervantes desde a adolescência.

Comecei a dividir tais questionamentos com um motoqueiro mais chegado. Ele fumava uma maconha lascada e me brindava com bons conselhos de vez em quando. Um belo dia veio com uma história de um vizinho de sua sogra que fora para Portugal e ficara rico.

Portugal no ano 2000 era outra coisa. O Brasil também, como dito acima.

Porta de entrada da União Européia. Poderia me estabelecer lá e, depois, me perder dentro do continente. Trabalhar lavando pratos e fazer um curso de inglês britânico, mandar uma grana pra casa. Depois Londres e a independência financeira e cultural. O cara se animou. Começou a falar de ir também. A gente poderia dividir um apartamento, em dois sempre se gasta menos e a solidão é menor. Um ombro pra desabafar é sempre bacana.

Um gaúcho muito maluco que também trabalhava conosco começou a se animar com a história. Também queria ir. A coisa começou a ficar séria e fomos nos unindo em torno desse projeto comum. Ficamos muito amigos, praticamente irmãos, os três.

Falávamos de nosso Projeto Europa diariamente. Marcamos janeiro de 2001 como sendo a data do embarque. Comecei a procurar informações na Internet sobre locais para ficar, empregos para ilegais, etc. As poltronas do avião nos dariam felicidade, riqueza, esperança. Ilusão que inebriava.

O gaúcho fazia um bico durante o dia num laboratório e falou de nossas intenções com uma enfermeira que trabalhava lá. Ela também embarcou na loucura. Disse que seria a mulher da casa, faria nossa comida, trabalharia muito e melhoraria a vida dos filhos. Começamos a nos falar por telefone e já éramos quatro. O quinto elemento era outro enfermeiro que o gaúcho também conhecia de priscas eras. Gostou da idéia e disse que tinha duas amigas em Lisboa que poderiam morar conosco. Seríamos sete, mais dinheiro sobrando. A coisa estava séria.

Reservamos as passagens por telefone e começamos a juntar dinheiro. Os motoqueiros venderiam as motos e o enfermeiro venderia seu carro. Iríamos como uma família, unidos desde aqui para a nossa república. Foi bonito. Durante uns sete meses tratamos de tudo com entusiasmo. Foi uma relação de respeito e amizade entre cinco pessoas que queriam dar um pé no Brasil e em sua injustiça, em sua falta de visão social, no tratamento desigual que ele dava a seus filhos… Muitas vezes choramos um no ombro do outro lamentando tanta infelicidade, tanta luta em vão. FHC era nosso grande vilão. Odiávamos o presidente.

O mundo girou, a Lusitana rodou e não viajamos. A república proclamada não se concretizou. Nós, os farroupilhas unidos de modo quase que mágico, seguimos cada um por um caminho diferente. No Brasil.

Eu, um Garibaldi perdido no tempo, não entendi. Assim como não planejei viajar com mais quatro pessoas, também não planejei que essa união se desfizesse antes de se consumar de fato. Foi um processo natural, orgânico mesmo. Como nasceu, morreu. Sem dor e sem traumas. Era como se essa união pré-viagem fosse o suficiente pra gente agüentar o tranco mais um pouco. Fortalecemos-nos e seguimos na mesma. Ao dar as mãos uns aos outros, estávamos tratando as feridas que eram o motor que nos empurrava para fora daqui. No ano seguinte Lula venceu as eleições, a vida melhorou pros caras como nós.

Uns quatro anos atrás vi o gaúcho no supermercado. Casado, com uma filha linda. Demos um abraço bem forte e ele me disse que nunca se esqueceria daquela época bonita, de desemprego, desesperança, governo tucano, desilusão e amor fraternal.

E eu? Acham que me esqueço?