Ontem, 17, na rua Xavier de Toledo, centro de São Paulo, a PM executou um mandado de reintegração de posse de um prédio ocupado há cerca de três meses. O prédio pertence à Tele S.A., devedora de IPTU e abrigava 72 famílias.

Veja a linha do tempo:

5h50 – Cerca de 10 viaturas, além de motos e um carro da Eletropaulo restringem parte da rua Xavier de Toledo, os moradores observam pela janela.

{{Foto: Victor Amatucci – ImprenÇa}}

6h05 – PM isola toda a rua Xavier de Toledo. Na janela da ocupação, um aparelho de som toca “Daqui não saio”.

É possível sorrir em uma situação como esta? Sim, dizem os rostos dos moradores. É o sorriso que a luta pelo que acreditamos nos causa, penso eu.

6h18 – A PM tira jornalistas  e parentes dos moradores da rua. Todos são obrigados a permanecerem longe da fachada do prédio.

– Patryck Wiclyff, 17 anos {{na Frente de Luta por Moradia desde 2013}}, chega ao lado dos jornalistas. Ele mudou para a rua 7 de abril. Decisão de resistir, segundo ele, foi tomada na noite anterior.

6h40 – Moradores gritam de dentro do prédio: “Ocupar, resistir, construir e morar!”, enquanto jogam papel picado do alto do prédio. A tropa de choque da PM se prepara para invadir a ocupação.

– João Rael, 11 anos {{morador de ocupação de outro movimento por moradia}} estava indo à escola e resolve parar para assistir a ação.

{{João Rael conversa com o foto-jornalista Felipe Paiva – R.U.A – Foto: Victor Amatucci – ImprenÇa}}

E era articulado o garoto. “Como que eu vou para a escola agora?” Perguntei se o ônibus dele saía desta rua e levei um tapa na cara: “Como que eu vou para a escola e deixar eles sozinhos aí?”.

6h55 – Choque já devidamente vestido, se reúne na frente do Shopping Light. Carregam armas com balas de borracha {{não estavam proibidas?}}.

{{Robcops se preparam – Foto: Victor Amatucci – ImprenÇa}}

Alguém consegue levar a sério essa roupinha? Deve ser por isso as armas de bala de borracha, né?

7h02 – Populares que assistem à ação começam coro de “Sem violência” e de “Quem não luta, tá morto”.

7h10 – Bombeiros e o choque começam a quebrar a porta da ocupação.

7h15 – Juliana, advogada do Centro José Gaspar de Direitos Humanos, rompe o cerco e consegue chegar até o comandante do batalhão para negociar.

7h20 – Jefferson, morador de ocupação na José Bonifácio {{da mesma FLM}}, chega preocupado com a esposa grávida, que ele supõe estar dentro do prédio alvo da ação. Ela está em uma gestação de 4 meses.

{{Jefferson, preocupado com sua esposa – Foto: Victor Amatucci}}

A solidariedade traz a culpa: “Se eu não tivesse ‘moscado’ estaria lá dentro com ela”. A PM sente culpa?

7h40 – PM e bombeiros conseguem abrir a porta do imóvel ocupado. Começam a tirar entulhos de dentro. – Um homem grita atrás de mim:

Ele está errado?

7h55 – Moradores gritam de dentro do prédio: “Povo na rua, polícia a culpa é sua”. Choque se prepara para entrar. PM e bombeiros saem do prédio.

{{Choque se encaminha para entrar no prédio ocupado – Foto: Victor Amatucci}}

7h58 – Choque entra no prédio

8h27 – Coordenadora de outra ocupação da FLM informa que os moradores estão todos abraçados no 9º andar da ocupação. O Choque estaria na frente de outra barricada, armada no 8º andar.

Último suspiro antes do mergulho. Últimos momentos antes de perder sua casa. Já sentiu isso ? Espero que não.

8h45 – A mesma coordenadora informa que os policiais do choque separaram homens e mulheres. Estariam pedindo o RG de todos eles. Tudo feito longe das câmeras da imprensa, sem nenhuma testemunha.

A quem serve a polícia? Quem confia na polícia?

9h25 – O Choque sai do prédio. Ainda não se vê nenhuma família.

O que será que está havendo?

9h32 – É possível ver os primeiros moradores saindo do prédio; aparentemente, em boas condições físicas.

{{Foto: Victor Amatucci – ImprenÇa}}

O que será que passa na cabeça dessa gente?

9h40 – As famílias são colocadas dentro de um ônibus da PM. População grita em apoio aos moradores, pedem que não entrem no ônibus. Os moradores não ouvem, apenas acenam um ‘tchau’, para dizer que estão bem.

9h55 – Ônibus com as famílias é retirado do local, sob protesto da população que assiste à ação:

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10h05 – Transeunte passa pela população que ainda permanece no local e chama os ocupantes dos prédios de vagabundos. Ele é hostilizado e precisa de apoio policial para sair do local.

E assim começou meu dia… Como acabou é meio incerto. A gente tenta permanecer frio, mas a vida impõe emoções, decepções. A vida segue. A PM e o Choque também.