Alencar Santana Braga

Nesta semana, assistimos perplexos mais uma rodada de cenas assustadoras sobre a questão dos fluxos imigratórios na Europa, mais precisamente no Mediterrâneo.

Uma foto, de uma criança de três anos morta à beira da praias e o soldado turco carregando em seus braços o corpo de menino, de origem síria, vítima de um naufrágio que matou seus pais e outras seis crianças, é de cortar o coração. Algo horrível e que não podemos aceitar como normal. Deveria ser a gota d’água para o mundo começar a verdadeiramente enfrentar a questão.

Há poucas meses, um navio naufragou na costa da líbia, matando mais de 700 pessoas e, somente em 2015, estima-se em 2.000 o número de mortos (segundo a Organização Mundial das Migrações – OIM), mas os números podem ser muito maiores, uma vez que muitos desaparecem no mar.

O fluxo de pessoas, vindas de regiões como a Síria e a Líbia, fugindo das mais adversas condições, como guerras, fome, pobreza e perseguições políticas, étnicas e religiosas, tem como destino os países europeus de mais fácil acesso pelo mar, como a Itália e a Grécia.

Apenas esses dois países receberam quase 200 mil pessoas vindas do mar, a maioria jovens e crianças, amontoadas em embarcações clandestinas e sem condições mínimas de segurança e higiene, buscando uma vida melhor no continente europeu.

Se por um lado, questões humanitárias têm obrigado as pessoas a deixarem seus países e entrarem em correntes migratórias, por outro, o mundo tem fechado não só as fronteiras, mas também os olhos para a situação. Ao mesmo tempo, a crise econômica que afeta o bloco econômico europeu – e consequentemente o medo de que os imigrantes possam tomar os empregos – tem elevado o clima de tensão dentro de países como a França, a Espanha e a Alemanha, numa escalada da xenofobia que, em alguns casos, chega ao viés nazifascista, como o incidente no metrô de Berlin, há poucos dias, em que jovens alemães urinaram em crianças do norte europeu.

No Brasil, especialmente em São Paulo, a postura frente aos fluxos migratórios sempre foi mais amena.

O país recebeu, nos últimos anos, milhares de latino-americanos, de várias nacionalidades, além de pessoas do oriente médio e do continente africano. Mais recentemente, grupos de haitianos, fugindo da pobreza e da falta de perspectivas econômicas em seu país – devastado por um terremoto – e têm chegado a diversos estados, entrando pelas fronteiras norte do Brasil. A maioria, recebe documentos e carteiras de trabalho, sendo contratados por empresas de forma legal e com acompanhamento do Governo Brasileiro.

Apesar dos esforços do Governo, ainda há muita exploração – inclusive análoga a escravidão – de pessoas vindas de outros países e, pelas grandes e pequenas cidades, a xenofobia ainda é grande. Há poucos dias, um grupo de imigrantes foi vítima de um atentado por arma de fogo na região do Glicério, na Capital paulista. Nas redes sociais, grupos xenofóbicos e racistas fazem ataques e organizam ações contra imigrantes, ao mesmo tempo que espalham-se falsos boatos sobre roubos, doenças e estupros praticados por pessoas de outras nacionalidades em residência no Brasil.

Esse panorama mundial mostra a urgência do debate sobre as questões migratórias. No Brasil, e pelo mundo, o tema deve ser prioritário, não somente por questões econômicas, mas também humanitárias. O capitalismo e o capital sempre pregaram um mundo sem fronteiras, globalizado, mas retiraram as grades, os muros e as fronteiras apenas dos fluxos financeiras, esquecendo de dar iguais condições às pessoas.

Só há livre trânsito onde há interesses.

A cena da criança morta é mais um capítulo dessa triste história da humanidade.

Que as nações que se dizem poderosas, usem seu poder para adiar a humanidade ser mais feliz.

 * Alencar Santana Braga é Deputado Estadual (PT-SP), Coordenador da Frente Parlamentar “Guarulhos quer metrô” e Presidente da Comissão de Infraestrutura da Assembleia Legislativa de São Paulo.
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É curioso o bastante para falar sobre qualquer assunto e inteligente o bastante para saber que quase sempre estará errado.