Gabriel Priolli é uma das pessoas que mais conhece TV hoje no país. Sua experiência acumulada é imensa, atrás e em frente às câmeras. Jornalista de formação, Gabriel passou pelos mais importantes veículos de comunicação do país, tendo trabalhado também por anos com marketing político.

Nos anos 1990, Gabriel publicou o livro O Campeão de Audiência, uma excelente biografia de Walter Clark (1936-1997), figura de proa da televisão brasileira em seu processo de consolidação. O livro acaba de ser relançado pela Summus Editorial e é obrigatório para quem se interessa pela história da televisão, especificamente da TV Globo, emissora dirigida por Walter até 1977.

Procurei o Priolli via Facebook para falar do livro mas não resisti e coloquei perguntas sobre a situação política do país. Gabriel é um homem de esquerda que conhece profundamente como funcionam as relações entre o marketing, o poder e a mídia. Impossível conversar com ele sem aproveitar este manancial de conhecimento.

Quem era o Walter Clark em poucas palavras?

Um grande vendedor. Da TV em geral, das emissoras onde trabalhou e dele mesmo.

A dupla Boni e Clark é lendária e objetivamente é a artífice do sucesso do canal 4 do Rio de Janeiro como a maior rede de televisão da América do Sul. A dupla era um conjunto harmonioso ou haviam arestas mais pontiagudas que as que conhecemos?

Foi um conjunto harmonioso até meados dos anos 70, quando as ambições de cada um entraram em rota de conflito e as divergências sobre a gestão da TV Globo se acirraram.

Boni e Walter Clark

A imprensa, na época da saída de Walter da TV Globo, disse que a queda dele representava a derrocada do luxo e da ostentação na emissora. A revista Veja inclusive o descreve como um verdadeiro marajá, com hábitos nababescos. Quanto disso é verdade e o quanto isso influenciava no que importa, que é a programação e os resultados no canal?

Os hábitos do Walter eram tão nababescos quanto os de outros diretores da Globo, como o próprio Boni. Até menos, se considerarmos que Boni tem uma ilha em Angra dos Reis e Walter nunca teve; seu maior luxo imobiliário foi o apartamento da Lagoa onde Jabor rodou o filme “Eu Te Amo”. Walter era apenas menos discreto e tinha mais mídia, desde os tempos da TV Rio. Nélson Rodrigues escrevia crônicas sobre ele, o que contribuiu para a construção do duplo mito (o do Toque de Midas e do marajá da TV). Walter sempre aparecia muito mais do que qualquer outro, inclusive Roberto Marinho – o que teria despertado o ciúme do patrão, na visão dele. Que se saiba, os hábitos do Walter jamais atrapalharam a Globo. Os resultados positivos de gestão, tanto da grade quanto do comercial e do administrativo, são fruto da competência do gestor e de sua equipe.

 Walter não deu certo na Bandeirantes. Culpa de quem?

Segundo ele, da mentalidade reinante na emissora e de seus donos. Walter disse que João Saad era um “caboblo otomano”, que dirigia uma rede nacional de televisão “como se fosse uma lojinha da 25 de março”. Tendo a concordar com essa avaliação. Acompanhei o período dele na Bandeirantes e testemunhei a caipirice das fofocas sobre a Ferrari do Walter e qualquer coisa que ele fizesse. Houve um choque cultural na empresa. A Band tinha um corpo de pessoal acostumado a jogar a Série B, com um viralatismo entranhado. As pessoas não conseguiram engolir um técnico de Champion’s League, era demais para elas. Além disso, faltou dinheiro para financiar a nova grade de programação pelo tempo necessário, até que ela desse o resultado desejado. A Band era muito imediatista, queria que o Toque de Midas funcionasse de cara. Não teve paciência nem coragem para segurar a alavancagem. Desistiu logo.

Walter Clark estando vivo seria um bom nome para gerir a Record, emissora que não tem um profissional do ramo à frente de suas operações?

Dificilmente. Walter estaria hoje com 78 anos. Quando morreu, em 1997, talvez tivesse garra e criatividade para enfrentar o desafio. Se lhe dessem liberdade para trabalhar, evidentemente. Mas a direção da Record sempre foi infestada de pastores da Universal, diretamente inseridos ou gravitando em torno. Se a caretice da Bandeirantes não suportou o estilo do Walter – grandioso, aparatoso, gastador, barulhento – a da Record dificilmente suportaria.

Para onde o coração de Walter apontava: esquerda, centro ou direita? E a relação dele com a censura e os governos militares?

O Walter era um centrista, um liberal. Governava com a direita e flertava com a esquerda. Hoje sua posição ficaria muito clara, mas em sua época eram todos contra a ditadura e isso esfumaçava os limites entre esquerda e centro. A direita se ocultava e todo mundo parecia de esquerda… Walter resistiu à censura como pôde e teve uma relação de gato e rato com os militares. Negociou com eles sempre, mas jamais teve simpatia. E a sua queda da Globo foi precipitada exatamente por conta do “mau comportamento” num jantar em Brasília, repleto de militares graúdos, em que Walter teria sido inconveniente. Os militares se queixaram, Roberto Marinho irritou-se e isso foi a gota d`água no relacionamento já desgastado.

 


O relançamento do livro tem algum motivo especial? O que a figura de Walter Clark pode acrescentar aos leitores interessados por televisão de hoje?

O relançamento do livro tem o sentido de reavivar a memória de Walter e fazê-lo conhecido da nova geração. Ele foi um dos criadores da moderna televisão brasileira e sua trajetória é do interesse de todos que fazem ou assistem TV.

Televisão é uma língua morta? Como você enxerga os próximos anos desta tecnologia?

A televisão segue vivíssima e continuará assim por um tempo que é impossível estimar. As formas de distribuição estão mudando, mas isso não liquidará com o veículo. No Brasil, a TV aberta atinge 95% da população e a internet ainda não chegou a 50%. Como diz o meu amigo Walter Silveira, artista gráfico e produtor de audiovisual, atualmente na TV Brasil, “a TV aberta é como um elefante marchando para o cemitério; ainda vai derrubar muita mata até chegar lá”.

Você gosta da maneira como o governo gere a TV Brasil? O que acha que deveria ser diferente?

Não gosto. Tudo deveria ser diferente. Mas é assunto para umas 50 páginas…

A esquerda deve continuar culpando a mídia pelo que vem ocorrendo com os últimos quatro governos eleitos no país ou há algo mais importante que vem passando em branco?

A esquerda, como cabe e só ela é capaz de fazer, tem de fazer a crítica radical dos governos petistas. Essa crítica deixará claro o papel deletério da mídia, mas também os erros dos próprios governos e a incapacidade do PT de contribuir para solucioná-los, por submissão absoluta ao Planalto.

Dilma fica? O que você espera do governo dela no campo da comunicação?

Não sei se ela fica ou cai, mas, para o campo da comunicação, tanto faz. Dilma não tem nem quer ter política para essa área, tanto no âmbito do governo quanto do país. Seus conceitos sobre regulação da mídia, por exemplo, são atrasadíssimos e o medo de enfrentar o oligopólio do setor é histórico nos governos petistas. Pessoalmente, não espero absolutamente nada de Dilma, no campo da comunicação. Com Lula, avançamos pouquíssimo e com ela, recuamos no pouco que avançou. Treze anos de PT no poder não levaram a nenhuma mudança significativa, nada que se possa aplaudir.

O que Walter Clark diria da situação política que estamos vivendo?

“Vamos cobrir isso tudo! O país está fervendo! Ponham as câmeras na rua! Vamos debater, que é isso que a audiência quer e está fazendo! Não podemos ficar fora disso!”