Por Fernanda Otero

Mais de 100 mil pessoas participaram de uma passeata pacífica pelo Centro de Dublin, capital da Irlanda, contra a privatização da água no país.

 

Aconteceu no sábado (20) no centro de Dublin (Irlanda) uma passeata que reuniu mais  de 100 mil pessoas (segundo os organizadores) vindas de várias partes do país para protestar contra a cobrança de água. “De jeito nenhum, não pagaremos!” foi a palavra de ordem entoada pelos manifestantes que caminharam pelas principais ruas do Centro da capital do país.

A marcha foi organizada pelo movimento Right2Water que é composto por Sindicatos, organizações não governamentais, grupos comunitários e políticos independentes.

O movimento Right2Water defende a realização de um referendo popular para decidir se o governo tem o direito de comercializar a água. Após a criação da empresa público privada Irish Water em 2014 os cidadãos estão assustados com a cobrança da água, com valores que podem variar entre € 176 e € 500 por ano. Desde 2014 com o início do processo de privatização da água, outras passeatas foram realizadas e sempre registram expressiva participação popular, com média de 100 mil pessoas marchando.

{{Foto: Fernanda Otero}}

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A marcha aconteceu uma semana antes das eleições para o parlamento irlandês marcadas para o próximo dia 26 de fevereiro.

A manifestante Cristina, 33 anos, moradora de Donegal, cidade ao norte do país, disse que a luta do sábado não era apenas contra a cobrança da água: “Eu estou cansada” desabafou. Cristina marchava ainda contra outros problemas: “a criação do Irish Water, a cobrança da água, contra as políticas de austeridade, em apoio aos sem teto, pelas 1.500 crianças que estão sem uma casa para morar.  Tudo isso me deixa doente” desabafou. Cristina conta que iniciou a luta contra a taxa da água em setembro de 2014. Diz-se incomodada com o fato de “os ricos estarem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”. Sua expectativa é que a eleição pode deixar o cenário ainda pior que o atual.

Ela explica que não há nenhum contrato com a Irish Water e que a companhia está “enganando as pessoas.” “Não temos um contrato, ninguém assinou um contrato. Já pagamos pela água que recebemos através dos impostos” explicou.

Ela lembra que em 1997 houve uma tentativa de cobrar pela água, mas a população se uniu, protestou e a cobrança foi suspensa.

{{Foto: Fernanda Otero}}

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Cristina explica que existe uma campanha midiática em apoio à privatização. Segundo ela, a mídia está tentando fazer as pessoas acreditarem que caso o pagamento não seja feito e após a quarta cobrança, haverá uma multa pela inadimplência. Mas isso só poderia acontecer, explica ainda, após uma decisão da Suprema Corte, e só após ela ser acionada duas vezes. Ela insiste na questão do contrato: “o que estamos tentando dizer às pessoas é que não importa quantas multas eles apliquem, só existe uma dívida após um contrato, a maioria das pessoas não tem um contrato, e se você não assinou um contrato, eles terão que provar sua dívida. Sem um contrato eles (Irish Water) não podem fazer nada contra você”.

A manifestante conta que procurou na mídia notícias sobre o protesto e não encontrou uma palavra sobre o assunto. “A mídia parece ter medo de nós, mas quando se trata da Irish Water, continua a assustar as pessoas. Se você não fizer nada, ninguém gritará por você” disse.

Um grupo de bolivianos participou do ato e trazia uma faixa em solidariedade aos irlandeses. A faixa dizia: “fizemos isso em 2000, vocês podem fazer isso agora! Pela anulação da cobrança da água”.

Cobrança de água

{{Foto: Fernanda Otero}}

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A Irlanda se recupera de uma crise econômica e apresenta níveis considerados altos de desemprego, atualmente na casa dos 8,6%. Até o final de 2014, o consumo de água era gratuito, mas devido a um acordo celebrado com o FMI em 2010 quando o país recebeu ajuda financeira do Fundo, o governo irlandês comprometeu-se a criar vários impostos, entre eles, a cobrança da água. A medida faz parte de um pacote de ajustes que será executado em 6 anos.

O salário mínimo mensal médio dos irlandeses está em torno de € 1240,00.

Fernanda Otero, 44, Jornalista, atuou com assessora parlamentar por 13 anos na Alesp onde fez parte da equipe da Assessoria de Comunicação da Liderança do PT (2011-2014).

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