Houve um tempo no Brasil em que todos odiavam Lula. Aí veio 2002 e “Lulinha paz e amor” foi eleito, fez dois mandatos e saiu com aprovação superior a 80% – notadamente a melhor já registrada na história. Vieram então os tempos em que 100% da população nacional havia votado no Lula em 2002. Depois do segundo mandato da Presidenta Dilma Rousseff o país voltou ao normal. Grande parte da população readquiriu o ódio esquecido na gaveta contra Lula e o PT. Mas houve quem se manteve estável em sentimentos, como a mídia nacional.

Este ImprenÇa já demonstrou no “Ebook: Existe imparcialidade na mídia brasileira?” os motivos pelos quais tem no Ç o maior mérito. Aqui, ao contrário deles, se fala aquilo que pensa, sem reservas – senão as das provas -, dando fontes e dados para que você, leitor/leitora possa verificar o texto e concluir se é o caso de uma notícia/análise ou apenas um panfleto.

Pois bem, eis que o jornal “Estado de São Paulo” recentemente se superou na panfletagem. Pior, usa os dados que melhor lhes cabem ignorando que qualquer série histórica serve apenas quando baseada em estatísticas e não em uma foto no presente. Calma, a gente explica.

{{não acredite em mim – Estadão}}

 

O artigo começa falando sobre “a criação da pobreza”, numa espécie de mímese {{quando um autor imita outro tentando superá-lo}} do clássico grego de Hesíodo, a Teogonia. Lá, na grécia antiga, Hesíodo buscava, por versos, explicar a origem dos deuses gregos. Narra uma batalha épica entre os Titãs, antigos manda-chuva do Olimpo e os novos deuses, que acabaram ganhando. É um livro bastante interessante, ao contrário do Editorial do jornal paulista, que é um texto cheio de argumentos batidos e preconceitos implícitos, sob a maquiagem de “dados e estatísticas”.

Mas como o lema do blog é {{não acredite em mim}} vamos ler alguns trechos do artigo.

“Pobreza não se cria da noite para o dia. Em geral, é resultado de anos de má administração, combinada com ideias equivocadas sobre o papel do Estado na economia. Pode-se adiar seu aparecimento, pode-se até mesmo dar a impressão de que se conseguiu erradicá-la, mas, cedo ou tarde – geralmente cedo –, os erros vão resultar em degradação da renda de parte significativa da população, que antes experimentou a ilusão da ascensão social.

Um argumento raso e óbvio {{superficial até}} sobre o nascimento da pobreza, seguido por uma introdução ao que o jornal realmente quer dizer: toda aquela gente que o PT diz ter tirado da pobreza, na verdade, não tirou. Foi tudo uma ilusão de ótica, como num tosco número do global “Mister M”.

Pois bem, o artigo segue afirmando que não é nenhuma surpresa saber que em 2016, 52 milhões de brasileiros e brasileiras encontravam-se abaixo da linha de pobreza. Pois bem, 52 milhões é um número bastante alto para qualquer sociedade. Mas como o artigo tem o sugestivo título de “A triste herança lulopetista” este ImprenÇa resolveu se dar ao trabalho de pegar a série histórica do Brasil, para que você possa ter uma visão maior – no sentido da pequenez de quem escreve um editorial para mentir. Dá uma olhada:

{{não acredite em mim – IPEA – PDF}}

{{não acredite em mim – IPEA – PDF}}

Estes dados são de um relatório do IPEA. Para os mais desconfiados, fomos atrás de uma fonte privada, a Fundação Getúlio Vargas, e um outro relatório sobre os índices de extrema pobreza:

 

A conclusão, bastante simples e óbvia quando se olha o todo, é que sim, de fato com o segundo mandato da Dilma a pobreza voltou a crescer. Mas basta uma passada de olhos no gráfico para notar que a herança do governo Lula, seja você apoiador dele ou não, é a superação de parte significativa da pobreza nacional. Isso não é uma questão de opinião. Mas o título do editorial não é “A herança do lulopetismo”. O título é “A TRISTE herança do lulopetismo” e nesse caso, de fato, o Estadão foi sincero.

Porque só quem pretende manter o status quo e os privilégios financeiros entre poucos amigos é que pode considerar que “Felizmente, contudo, o quadro começa a mudar. Com o fim da recessão, a retomada do emprego e a queda da inflação – resultados diretos da troca de governo depois do impeachment –, o número de pessoas abaixo da linha de pobreza já diminuiu neste ano, conforme informou Marcelo Néri, da FGV.”.

Primeiro é bom esclarecer que o gráfico acima é do mesmo Marcelo Néri, o que demonstra logo o mau caratismo do jornaleco. Segundo que “a retomada do emprego” esconde um dado fundamental: os índices de desemprego no mesmo período. E aí voltamos aos números apenas para espezinhar mesmo – sempre com a lembrança de que “a troca de governo” foi em 31 de agosto de 2016.

 

 

Os dados mostram que o desemprego cresceu após o golpe e não foi reduzido como mentirosamente o jornal Estado de São Paulo procura dar a entender.

É preciso fazer a crítica correta aos governos petistas. A falta de reformas estruturais, na mídia, na indústria, na tecnologia, no sistema carcerário brasileiro; estes são exemplos do que se pode criticar, com certa dose de razão. Mas dizer que a herança de Lula e do PT é a miséria é simplesmente mentir. Parece inacreditável, mas é só o Estadão mesmo.