Eleições 2018: Candidatos a vice governador do Estado de São Paulo

ImprenÇa entrevista os vice candidatos ao governo do Estado de São Paulo.

Quem é Ana Bock?

ImprenÇa: Coronel Nikoluki, conta um pouquinho da sua história e por que começar uma carreira política agora?

Coronel Nikoluki: É assim, eu nunca imaginei entrar na polícia, de verdade. Eu sou filha de policial militar e a minha mãe é professora de escola pública. Primeiro eu decidi virar policial porque eu queria ser igual ao meu pai e tudo começou quando eu vi ele desenterrando pessoas que estavam soterradas em Campos de Jordão, depois de uma chuva forte. E eu vi ele vibrando a cada pessoa que ele conseguia salvar.

Eu era menina e aquilo me impressionou de uma forma, que eu falei ‘eu quero ser igual ele. Eu quero salvar pessoas’. Eu via as pessoas abraçando ele depois de salvar parentes, então eu resolvi ser policial. Aí eu entrei na academia, quando abriu a primeira turma [que aceitava mulheres] e participei nestes 30 anos trabalhando e liderando pessoas, resolvendo problemas e crises.

Uma característica que eu percebi é que a vida toda a gente é desafiado ao longo da carreira para resolver crises, mas o mais importante, é mediar conflitos. Eu acho que esse é o maior papel que a gente tem que ter.

E ao término destes 30 anos, vários colegas vieram falar comigo: ‘coronel, você está encerrando uma carreira, uma pessoa de vida limpa… Por que não se colocar na política?’. E um colega meu, que é deputado federal, o capitão Augusto ele que ficou na minha cabeça e falou ‘me ajuda, precisamos de mais gente’. Aí eu topei.

Mas na verdade, a gota d’água é que eu tenho duas filhas, a Catarina de 16 anos e a Carolina de 23. Carolina está terminando o curso na Unicamp e ela falou para mim que queria ir embora do Brasil. Isso me machucou muito. E quando eu perguntei ela disse ‘ah mãe, Brasil não tem mais jeito’.

Essa fala dela, na verdade, reflete a fala de muitos jovens. Colegas da minha filha, pessoas que eu conheço, pessoas falando em ir embora do Brasil. E colegas meus, que estão terminando uma carreira, querendo ir para Portugal. Aí eu falei ‘não gente, tem alguma coisa errada’.

Um tempo atrás as pessoas vinham para o Brasil porque era uma terra de oportunidades e, de repente, uma nova geração querendo fazer o caminho de volta? Então foi essa fala da minha filha que me colocou na política.

ImprenÇa: A senhora foi pré-candidata a deputada, por que a mudança? O que te fez abrir mão da candidatura?

Coronel: Comecei como pré-candidata a deputada estadual, quando fui convencida. E eu queria, meu projeto inicial era trabalhar forte na questão da valorização das forças de segurança, que são polícia civil, polícia militar, polícia técnico-científica, guardas municipais, agentes de defesa civil e agentes penitenciários também. Porque todos fazem parte de um sistema de proteção social.

E trabalhar na questão da prevenção primária da violência, que é família, educação, né? Planejamento urbano, pessoas vulneráveis, que são idosos e jovens, então mexer com esporte… Tudo aquilo que de alguma forma quando bem trabalhado pode diminuir a violência.

E nessa minha caminhada de repente eu recebo o convite para ser a vice do Márcio França. E eu quase enfartei. Porque assim, para quem não ia ser política, de repente receber um convite para um cargo do executivo, é muita responsabilidade.

Isso me fez pensar, pesquisei também quem é o Márcio França. Porque como deputada estadual, a gente tem a nossa bandeira, a nossa proposta. Como candidata a vice-governadora, na verdade eu faço uma adesão ao projeto de alguém, que é o do governador. Então eu pesquisei sobre ele e sobre o projeto dele e gostei.

Mas por que eu gostei? Porque ele fala em valorizar as pessoas que prestam serviço público. Eu acho isso fundamental e estava na minha proposta inicial, de valorizar e fortalecer, para que prestem serviços públicos melhores e trabalhar principalmente com a melhoria dos serviços públicos, então educação, saúde, segurança pública, que é realmente o grande desafio, o básico.

Eu estava comentando nos bastidores, a visita que eu fiz na comunidade do Ermelino Matarazzo, no movimento do Padre Ticão, da questão habitacional. Aliás o padre faz um trabalho extraordinário por lá. Uma coisa que vale a pena conhecer, eu não conhecia, tinha ouvido falar.
A gente olha no olho das pessoas e vê que o que as pessoas querem é ter um lar. E a gente fala tanto da importância da família, não fala? Como célula da sociedade…

Mas para ter família, é preciso ter um lar, é preciso ter uma referência, é preciso ter um espaço onde você se sinta protegido, a vontade. O que aquelas pessoas querem é isso, um lar, educação, acesso a saúde e querem ter segurança. Que são direitos de todo mundo.

Então eu percebi que na política, encerrando 30 anos de gestão pública, a vivência, o sofrimento até, que a gente angariou durante a vida, de mediar problemas graves, né? Poxa vida, me encanta de repente poder colaborar nesta outra área de gestão, na política.

Mas para resgatar aquela política que os gregos antigos faziam, de diálogo, de trabalhar com interesse na finalidade do interesse público, do bem comum, então eu acredito nisso.

E quando o governador Márcio França me chamou, ele disse que queria dar espaço às mulheres. Então quando ele foi compor a chapa majoritária do governo dele, ele pensou numa chapa mista, então ter a vice mulher e inclusive a chapa para o senado ter uma senadora e um senador.

E o segundo aspecto que gostei, foi ele ter falado do meu trabalho ao longo destes 30 anos, ele falou muito deste meu aspecto de resolução de conflitos, mediação e tudo.

E as forças armadas na política? A senhora falou um pouco, mas queria ouvir mais sua opinião…

Muita gente fala de colégio militar, de militarizar, de golpe militar… Não é o militar que a pessoa quer, na verdade. Eu tenho uma leitura disso, que na verdade essa pessoa quer os valores que um militar representa ou seja, ordem, disciplina, lealdade, constância, honestidade… Não que todo militar seja perfeito, não é isso, mas é a imagem que essa instituição passa para a sociedade.

Eu acho que é isso que a sociedade está querendo de volta. Reestabelecer isso, porque isso traz paz social, traz equilíbrio isso traz igualdade. É o que está na nossa bandeira, ordem e progresso.

Como a senhora vê a questão da educação no Estado de São Paulo ?

Tem que melhorar. A gente vê o seguinte, escolas públicas que antigamente… veja eu estudei em escola pública, antigamente a gente dizia que quem não passar na escola pública paga para passar na particular. Eu peguei essa época. Mas era uma época onde a escola pública dava orgulho.

Eu estudei no Teodóro Correia Cintra lá em Campos do Jordão, né? E era a maior escola estadual e a gente toda semana cantava o hino nacional, quando o professor entrava na sala, nós levantávamos e ficávamos em pé em sinal de respeito, né? Então tinha todo um respeito e uma preocupação com a educação. Acho que passou do momento de resgatarmos essa valorização do professor, como autoridade, como pessoa.

Nós precisamos resgatar uma estrutura melhor nas escolas. Hoje em dia, o próprio governador Márcio França [cabeça de chapa da Coronel Eliane Nikoluki] fala em questão de lousas eletrônicas, né? Que o só o giz não vai resolver, né?

É fato que bons professores ensinam ‘até de baixo d’água’, não é que o equipamento vai resolver o ensino. Mas melhora a motivação, a interação, traz mais aparato de tecnologia. E dentro desse reconhecimento de que o ensino público precisa melhorar, o governador fez aquele projeto da Univesp, né? A Universidade Virtual. O que ele está garantindo? Que o aluno oriundo de escola pública, até por conta deste nivelamento de teoria, ele não precisa fazer vestibular, então ele terá o acesso garantido na Univesp, né?

E nos cursos técnicos do Paula Souza [Centro Paula Souza], então o aluno de escola pública não precisa de vestibular. E eles estão prevendo inclusive um curso de nivelamento para que estes alunos de escola pública possam se adaptar bem nessa universidade virtual.

Entrando um pouco nesta história, e os alunos que não possuem um acesso a internet?

Eles estão abrindo polos presenciais, então os alunos que tiverem dificuldade, dentro do projeto da Univesp, quem não tem condições, que pode acontecer, vai ter acesso a este polo presencial, ele pode acompanhar de algum polo presencial mais próximo da casa dele. E são vários que estão sendo abertos, isso é bem legal.

O que é? Ele vai poder estudar no horário dele, da forma que ele quiser. E no polo presencial ele vai ter acesso a computadores para que ele possa acessar na hora que ele puder e quiser. E vão ter algumas atividades que são presenciais… Provas, alguns trabalhos, aí é presencial. Mas é um projeto que facilita muito inclusive para quem já trabalha.

Você está falando de um projeto e eu fico me perguntando com relação a questão da ampliação de vagas nas universidades paulistas. Nós temos um cenário com uma PEC que está valendo, que congela os gastos. Isso está causando muita dificuldade em diversas cidades e estados por conta dos investimentos. Como ampliar o acesso a universidade e as vagas em um cenário como este?

Então, essa alternativa do virtual é uma opção viável. Porque ela tem um custo muito baixo, aproveita a própria estrutura que o aluno tem, as aulas são gravadas e elas não têm limites de disseminação, não é verdade?

Então ela democratiza melhor a informação. Então este é um caminho, né? Agora, de fato, nós sabemos que esta questão dos congelamentos de gastos e dos investimentos em áreas essenciais precisa ser revista.

Eu estou falando como cidadã, porque é uma medida federal, que não compete a mim. Mas eu acho que educação, saúde e segurança precisam ser prioridade. Então acho que precisa rever seriamente a questão nessas áreas que eu falei. Dá para cortar em áreas menos essenciais, sem dúvida.

Existe uma questão polêmica a respeito da autonomia das universidades. Tem a questão da lista tríplice, da escolha que o governador faz em relação ao reitor. Eu queria saber a opinião da senhora nessa questão da autonomia das universidades.

Eu particularmente acho que a gente tem sempre que respeitar a questão do conhecimento e da vocação de cada instituição. Então por exemplo, na área de ensino, quando vem uma lista tríplice da instituição, isso tem que ser valorizado, precisa ser considerado. Isso é um consenso entre a vontade da autoridade mas respeitando também a vontade da instituição e conhecimento angariado.

Veja, até nas instituições policiais se busca esse modelo de indicar as lideranças por meio de uma lista tríplice, né? Porque a instituição sabe quem são as pessoas que naquele momento estão melhor preparadas para dar continuidade a projetos de longo prazo. E às vezes a autoridade, por mais que ela tente acompanhar, ela está descolada muitas vezes das peculiaridades daquele momento. Então acho que o respeito a esta autonomia, que é até parcial né? Isso garante uma continuidade, uma coerência. Então eu defendo muito este modelo que eu acho bastante democrático, né?

Você falou de consultas à comunidade, a senhora é favorável a este tipo de consulta pública, conselhos participativos…

Claro, olha durante minha vida pública, quase 30 anos de polícia, eu sempre acreditei na questão dos conselhos, do colegiado.
Por exemplo, dentro da área da segurança pública, o CONSEG [Coordenadoria Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança] é fundamental para a gestão das políticas públicas de segurança. Porque são as instituições participando como membros natos, mas ombro a ombro, lado a lado, discutindo de igual para igual com as lideranças comunitárias. E isso traz resultado.

Quando a gente traz um modelo de projeto como a ‘vizinhança solidária’, o que que é isso? É trazer a comunidade para discutir e gerir a segurança pública localmente, né? E enquanto comandante do CPI 1 [Comando de Policiamento do Interior] aqui da região metropolitana do Vale, eu estimulei e desenvolvi as audiências públicas. Então além do CONSEG, onde estava tendo problemas de segurança ou a comunidade reclamando de um serviço, por exemplo, nós prontamente gerávamos as audiências públicas. E vinha quem quisesse para sentar e discutir e encontrar soluções. Isso é maravilhoso, esse é o modelo para mim mais democrático que existe. E nós temos que estimular isso em todas as áreas.

Sobre a cobrança nas universidades, qual a sua posição sobre isso?

Eu sou favorável a tratar cada problema pontualmente. Então é assim, a regra é que o serviço público… Bom tudo tem um custo, e esse custo precisa ser mantido com alguma fonte de investimento. O Estado não tem dinheiro infinito, então é claro que tem coisas que precisam ser cobradas sim, ainda mais cursos de pós-graduação.

Mas tem casos pontuais de pessoas que comprovam a incapacidade, comprovam uma condição financeira e econômica diferenciada e estes casos precisam ter uma gratuidade. Então de repente cotas, por conta de alguns critérios.

É preciso ter critérios claros, que gerem justiça. Que gerem equidade, equilíbrio.

A senhora é favorável às cotas raciais?

Sim, até porque nós vivemos um problema em nossa história de descompensação e a cota vem tentando corrigir, tentando trazer uma equidade na condição das pessoas. É claro que eu acredito que a cota vai ter um tempo, até que esta distorção de condição seja corrigida, né?
Mas nós temos que buscar, trazer condições melhores para todos, para que não tenha necessidade de ter cota, é isso.

E a questão das drogas? Nós temos uma orientação da OMS que fala em redução de danos e a gente tem no Brasil, uma política completamente oposta. O PROERD, por exemplo, vai no caminho oposto. Por exemplo, em São Paulo tivemos o De Braços Abertos, que era um programa de redução de danos e depois, com o Doria tivemos o Recomeço, que vai mais na linha do PROERD, qual linha a sua chapa entende como melhor ?

Então, eu sempre vou pelo caminho do equilíbrio, né? A lei hoje fala que consumir drogas é uma contravenção penal, ainda é. Não é crime mais, descriminalizou. Só que a pessoa que consome comprou em algum lugar, alguém está vendendo e cometendo crime sim.
O crime precisa ser combatido sempre, a lei precisa ser respeitada. Até porque quem decide as leis é o povo através de seus representantes. Mas, na questão do tratamento sim, acho que com o aval do poder judiciário, com o aval dos médicos, que são os especialistas que tratam isso; acho que ter um programa que faça com que as pessoas reduzam gradativamente o uso e possa reinserir numa vida normal, sempre é positivo.

Mas desde que esteja dentro de um pacote com um aspecto de legalidade, num ambiente que seja controlado, dentro de um programa realmente, onde participem todos. Eu vejo muito a importância de um trabalho em rede.

A polícia fazendo a parte de combate ao tráfico, de prevenção. A saúde entrando para recuperar. A parte assistencial entrando para ajudar a família. E fazer aí sim uma coisa bem estruturada capaz de realmente retomar um nível de humanidade.

A senhora falou sobre a participação na política como forma de protesto por conta da corrupção. Mas no PR, segundo o Correio Braziliense, o Valdemar da Costa Neto, condenado por corrupção ainda tem cargo no partido e, inclusive, é quem dá as cartas no partido. Há também duas denúncias sobre o Márcio França, que é o candidato da sua chapa. Não é uma contradição?

É assim, quando a gente se coloca na política a gente entra em um terreno muito pantanoso. A lei nos obriga a nos filiar a um partido certo?
Então se eu quero participar deste processo democrático, me colocar como candidata obrigatoriamente eu tenho que me filiar a um partido. Por que eu entrei no PR? Porque, como eu falei no início. Duas pessoas me convenceram a entrar na política: uma foi minha filha e outro foi esse deputado federal, capitão Augusto, que é um amigo e uma pessoa que tem feito um trabalho muito bonito. Defendendo coisas corretas e no qual eu me espelho. Eu vejo nele um exemplo de bom político.

E como na época eu iria sair a deputada estadual, eu acabei entrando no PR porque era o partido dele e porque eu iria fazer uma dobradinha com ele. Então eu me senti confortável. E no momento em que eu fui no PR preencher a documentação, antes de tomar a decisão final, eu estava com o Tadeu Candelária, que é hoje o presidente do PR e eu falei a ele: ‘Tadeu, antes de me filiar eu tenho uma única condição. Partido que me quiser, minhca condição é votar e ser quem eu sou. Quero votar sempre conforme meus ideais e meus valores.’

Ele me garantiu isso, total liberdade sempre, de ser o que sou e de pensar e respeitar aquilo que eu acredito. Então isso me deixa muito confortável, o exemplo de quem me convidou e essa liberdade que meu partido me garantiu.

Com relação a esta questão de denúncias de corrupção, eu acho muito bom que tenha, que aconteça. Porque nós vivemos um momento em que o mundo tá virando do avesso, o Brasil está do avesso. Essa polarização do ódio está acontecendo por conta de denúncias que abriram um leque de coisas horríveis que estavam acontecendo, de dinheiro público vazando pelo ralo, né? Dinheiro que deveria ser empregado na educação, na pesquisa, infraestrutura…

E isso apareceu por conta de investigação, de denúncia, do papel da imprensa inclusive. E tem que ser apurado. A pessoa que é denunciada precisa responder.

Mas tem coisas que acontecem, tem que ser considerado, que há denúncias que só aparecem em período eleitoral. Então precisa se respeitar muito a questão da investigação.

Ninguém pode ser condenado até que seja transitado em julgado. A pessoa tem o direito a se defender. Porque nós vivemos hoje um momento em que a informação é muito democratizada, mas nós também enfrentamos muito fake News. A má notícia, a mentira sendo disseminada.

Então é importante sim apurar com rigor. Precisa ter um processo de depuração e de cortar fundo na própria carne, mas ter cuidado de não crucificar ninguém até que se prove a culpa.

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