Se você veio até aqui achando que ia encontrar mais um texto engraçado, didático, satírico… Se você fez isso, desculpe. Perdeu seu tempo. Visite o arquivo do blog, está repleto deles.

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{{Foto: _Paul_ }}

 

Há um tempo atrás tive a oportunidade {{e com certeza essa não é a melhor palavra para isso}} de ver uma amiga recebendo, pela imprenÇa, a notícia de que sua amiga morrera, atropelada por um ônibus {{não acredite em mim}}. Não sei porque raios fiquei surpreso ao ler na folha, no Estadão, no G1, a quantidade de trânsito causada pela morte.

Em geral nos choca menos, quando não vemos os envolvidos chorando à nossa frente.

No último dia 9 eu tive outra desagradável experiência. Estava eu no sítio de um amigo, também do trabalho, paraquedista. Estávamos sentados frente à lareira, esperando o trânsito {{é, pois é}} diminuir para voltarmos a São Paulo. Lembro-me de estar distraído vendo o filho dele brincar, quando ouvi a mulher dele xingar alto. E logo em seguida começou a chorar. Peguei a criança, mudei de sofá e fui brincar, para dar tempo aos pais de entenderem o que houve, sem a preocupação de esconder / explicar ao menino de 4 anos o que ocorrera.

Acontece que o casal de amigos é paraquedista. E um grande amigo deles havia falecido, resultado de um acidente com o avião que o levava. Em poucas horas sabíamos exatamente o que ocorrera, qual a falha do piloto, os envolvidos e até detalhes de como ocorrera. Aprendi na Cruz Vermelha que faz parte do lidar com o luto querer saber de todos os detalhes. Eu, pessoalmente, prefiro não saber. Enfim, todos tristes, ligamos a televisão atrás de alguma informação.

No Jornal Nacional um breve relato do que ocorrera. Imagens da reportagem do Fantástico, onde Sangue {{nomear a vítima, por que não?}} havia participado. Tudo normal. Espantei-me com o comentário ao telefone de meu amigo: “isso, velho, o combinado é ninguém dar entrevista. Não vamos falar nada para os urubus“. Concordei. Desde minha experiência como Coordenador do Dpto de Desastres da Cruz Vermelha que penso assim. Ninguém deveria dar entrevista no momento de luto. É por isso que existe o sistema judiciário, afinal.

{{Foto: Radikal }}

 

Pouco depois ele me confidenciou: “Esses caras nunca publicam nada de bom. Nunca deram força para o esporte. Basta acontecer um acidente para estarem todos lá.” Ainda enquanto tentávamos digerir a história {{e um sanduíche}} meu amigo me contava os relatos das pessoas presentes: “Diz que o – piloto – teve que sair de lá fugido. O Sangue era amigo de todo mundo…“. Mas o – piloto – era amigo do Sangue ? – pergunto num misto de curiosidade e sentimento urubu. “Era, todo mundo era… Deve estar triste para caralho. Imagine a ressaca que ele vai acordar amanhã…“. É, imagina?!

E no Jornal Nacional a reportagem dá não só o nome do – piloto -, como a foto e dados de sua licença para pilotar.

Segundo a Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil, o piloto da aeronave, Douglas Leonardo de Oliveira, está com a licença para lançar paraquedistas vencida desde 2006 e o certificado de capacidade física inválido desde maio de 2012.

{{não acredite em mim}}

Que bom! – pensei. Agora ele não vai precisar fugir só do pessoal de Boituva, o Brasil todo sabe o nome dele. E viu a foto. Jornalismo, concluí. E que direito tenho eu de generalizar? Pois, é. Mas quase não tenho mais medo de englobar {{pronto, um trocadilho, ha ha}} todos os profissionais. Posso estar exagerando, posso estar envolvido.

Desde pequeno sonhava em pular de paraquedas. Foi com esse meu amigo que consegui reunir dinheiro, tempo e coragem para realizar o sonho. Não é das coisas mais fáceis de se esquecer. Conversei brevemente com o Sangue, nada que fosse relevante para ele, ou para mim, à época. 9 mil saltos de experiência. Corinthiano, como eu. E tinha nome. E morava com a mãe, não tinha coragem de abandoná-la sozinha em casa. Eu o fiz. Coincidências apenas para demonstrar que minha avaliação poderia, de fato, estar prejudicada pelo envolvimento emocional.

Poderia. Até hoje. Hoje estava eu no meio de um bilhão e quinhentas mil rotinas burocráticas {{sim, coloquei plural nisso aí}}, quando recebo um recado pelo gtalk:

Pois é. Back to Work. O vídeo não acrescenta nada a notícia. Mas expõe todos os envolvidos. Traz audiência, requenta um assunto. Ajuda na investigação? Quem investiga?!  Ajuda no luto?

Quando eu morrer, por favor. Não divulguem filme nenhum.

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É curioso o bastante para falar sobre qualquer assunto e inteligente o bastante para saber que quase sempre estará errado.

  • Tiago Tarifa

    Da a impressão que as pessoas encaram essas tragedias como se fosse um Big Brother. Ao mesmo tempo, quantos orgãos midiais (he he) ficam ricos com a venda dessas tragedias? Para passar o dia inteiro a mesma tragedia é porque deve “valer” a pena!
    Eu não conseguiria dormir ganhando dinheiro assim!